"Senhor, tua Palavra é luz no meu caminho e lâmpada para os meus pés! Creio que por meio da tua Palavra o Universo se formou; Creio que por meio da Tua Palavra a terra se firmou; Creio que Tua Palavra, o Verbo Eterno, se encarnou em nosso meio: Jesus, és a Palavra Viva de Deus Pai, Palavra que permanece viva em nosso meio, e continua a ser inspirada e renovada pelo Santo Espírito. Tudo pode passar, as ervas podem secar, as folhas podem cair, o céu e a terra passar, mas, tua Palavra meu Deus, jamais passará. E enquanto eu viver quero emprestar minha voz a Ti para que continueis falando ao coração dos homens e mulheres deste tempo! Fala-me Senhor, fala em mim Senhor, fala por mim Senhor!"
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segunda-feira, 5 de maio de 2014

O reconhecemos ao partir o Pão

1. “Eles reconheceram o Senhor ao partir o pão” (Cf. Lc 24,30-31). Esta afirmação que ouvimos no Evangelho aponta para nós algumas realidades:
·         A experiência do Ressuscitado da primeira comunidade cristã;
·         As refeições fraternas nas casas dos cristãos (Eucaristia);
·         O reconhecimento de Jesus como Senhor, que só “acontece” quando se percorre um caminho humano, que prevê alegrias e celebração, mas também o fracasso, a solidão, a busca pela justiça e verdade, a coerência em direção a um mundo melhor e a solidariedade (é esta a experiência que os discipulos de Emaús fazem na busca de respostas para os seus “porquês” e diante de toda angustia que estavam sentindo pelo ocorrido com Jesus);
É neste quadro que o Cristo, anônimo e misterioso, companheiro, testemunha e interlocutor das hesitações e dúvidas daqueles discipulos, revela-se, não como alguém que tem resposta para todos os questionamentos, mas como alguém que aceitou entrar no plano de Deus, onde torna-se o primogênito, ou seja, o primeiro de uma nova humanidade, nascida do seu sacrifício redentor.
Ele se revela num gesto tão simples: no partir de um pão. Um pão que indica a sua Presença no meio de nós, a Eucaristia.

2. A Eucaristia é um rito, pelo qual reconhecemos o Senhor. Não é qualquer rito, mas o memorial da sua morte e ressurreição. Neste rito se revelam os acontecimentos históricos da vida de Jesus, de sua Igreja e de toda a humanidade. Neste rito se revela o plano de Deus na atualidade da nossa história. A Eucaristia que celebramos não é recordação, mas atualização da Páscoa do Senhor e da nossa Páscoa também, pois é anúncio de salvação.
Este rito que celebramos como memorial é composto de duas partes: Liturgia da Palavra e Liturgia da Eucaristia. Seguimos os moldes da catequese primitiva dos apóstolos (por exemplo, At 2,14-33 – O discurso depois de Pentecostes), que se apoiava no testemunho da Escritura para interpretar o Cristo e seu anúncio; também a nossa comunidade se reúne para ouvir a Palavra de Deus proclamada, e assim compreender a sua vida de hoje ao mesmo tempo em que antecipa, na esperança, a glória com Cristo. Depois se celebra a Eucaristia – O Deus que nos fala se doa no pão consagrado e partilhado.
É por isso que a Igreja nos ensina que “as duas partes que constituem a missa, isto é, a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística, são tão estreitamente unidas entre si que formam um só ato de culto” (SC 56). Ou seja, “só quem partilha a mesma história pode partilhar o mesmo pão que é memorial, presença e profecia do Senhor ressuscitado” (Missal Dominical, Paulus)

3. A Eucaristia conforme nos ensina a Igreja “é ápice e fonte de toda a vida cristã”. A comunidade cristã se reúne em torno dela, portanto em torno de uma pessoa, Jesus Ressuscitado, que, está presente na Eucaristia, força que une a comunidade, força que impulsiona o seu desenvolvimento. Nós ocupamos o lugar dos discipulos de Emaús, pois reconhecemos o Senhor no partir do pão.

4. Pedro nos apresenta em sua carta uma norma de vida que consiste no temor filial que se deve ter em relação a Deus. Esta norma de vida tem seu fundamento na fé no mistério de Cristo revelado nos últimos tempos. De fato, a revelação última de Jesus, depois de Pentecostes, acontece na Eucaristia, revelação que se renova a todo instante nos altares ao redor do mundo.
O Sangue de Jesus derramado na Cruz é o mesmo Sangue consagrado sobre o altar, este é o preço pago pelo nosso resgate e ao mesmo tempo fundamento da nossa esperança (Cf. I Pd 1,17-21). Sob o olhar do Apóstolo que nos explica o mistério pascal, apresentando-nos como motivo determinante de santidade e de vida, ele nos fala do resgate que Cristo nos faz, o que nos leva a compreendermos ainda mais a Eucaristia como fonte e ápice de toda vida cristã.
A Eucaristia nos leva a fazermos uma experiência de resgate de consciência. A consciência de termos sido resgatados da vergonha e da escravidão e do pecado mediante o sangue do Filho de Deus. Este argumento é forte e inevitavelmente leva os homens a amar o seu Salvador e a viver de tal modo que sua Paixão não tenha sido inútil. O Sangue de Jesus é precioso, é dom, é esperança de vida eterna.  

5. Sendo fonte de vida, a Eucaristia nos chama a viver uma dimensão social, este Senhor que é reconhecido ao partir do pão por aqueles que comungam, pede aos mesmos, que se comprometam a partilhar outro pão, o pão da justiça e da solidariedade, um pão de defesa para aqueles que têm o pão de cada dia roubado pelas injustiças dos homens e sistemas sociais exploradores. Se faltarmos com este compromisso a Eucaristia não tem sentido, deixa de ser revelação da Presença de Jesus e passa a ser apenas um fenômeno alienante que alimenta somente uma fé sem raízes e sem compromisso.
A este respeito nos diz São João Crisóstomo: "De que serve ornar de vasos de ouro a mesa do Cristo, se ele mesmo morre de fome? Começa por alimentá-lo quando está faminto, e então poderás decorar sua mesa com o supérfluo. Dize-me: se, vendo alguém privado do sustento indispensável, o deixasses em jejum e fosses enfeitar sua mesa com vasos de ouro, achas que ele te seria agradecido? Ou não ficaria indignado? Ou ainda, se vendo-o vestido de andrajos e trêmulo de frio, o deixasses sem roupa para erigir-lhe monumentos de ouro, pretendendo assim honrá-lo, não diria ele que estarias zombando dele com a mais refinada ironia? Confessa a ti mesmo que ages assim com o Cristo, quando ele é peregrino, estrangeiro e está sem abrigo, e tu, em lugar de recebê-lo, decoras os pavimentos, as paredes e os capitéis das colunas. Suspendes candelabros com correntes de prata, e quando ele está acorrentado, não vais consolá-lo. Não digo isto para reprovar esses ornamentos, mas afirmo que é necessário fazer uma coisa sem omitir a outra; ou melhor, que se deve começar por esta, isto é, por socorrer o pobre".

6. Por fim, a Liturgia de hoje nos indica um caminho para o verdadeiro encontro com Jesus: é preciso escutar as Escrituras e partir juntos o Pão. Desta forma nos nutrimos do Pão da Vida que é a Eucaristia. Quem participa da Eucaristia se deixa transformar por Aquele que nela se doa. Por isso, a Eucaristia tende a nos tornar apóstolos, pois ela é amor ardente de Deus por nós, a qual devemos amar com um amor igualmente consumidor.
Sim, o “reconhecemos ao partir o pão”.

Pe. Rodolfo Marinho de Sousa
3º. Domingo da Páscoa – “Domingo dos Discipulos de Emaús” (Ano A)
São Paulo, 04 de Maio de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Um Pastor Apaixonado

1. “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”. (Is 49,15). Esta é uma resposta apaixonada de Deus a seu povo, um sinal da obra do seu amor.
Esta palavra de Deus posta na boca do profeta Isaias se dá em um momento em que o Povo de Israel está retornando à Pátria e Jerusalém está sendo reconstruída. Neste contexto, o Profeta Isaias nos apresenta Deus não como o criador onipotente, o soberano absoluto do mundo, a realizar sua vontade em todas as circunstâncias, mas como um “apaixonado” que tem as mãos tatuadas com a imagem da pessoa amada, a fim de tê-la sempre presente, a trazendo dentro de si, com amor superior ao próprio amor materno. O convite é para que o povo desperte para o amor de Deus, um Deus apaixonado.
O amor infinito de Deus agirá e há um tempo particular no qual Ele decide intervir. Uma intervenção de providência, mas, sobretudo, de amor.

2. Israel é um povo separado, um povo especial, um povo que se distingue de outros povos, não porque receba mais do que os outros povos em relação aos bens da terra, mas porque é um povo eleito, eleito por Deus, separado por Ele para si. Israel não deixa de ser a “terra prometida”, e repete na sua experiência de vida a experiência de ser o guarda dessa promessa através de gerações.
As profecias à cerca desta realidade são longas; de fato, os bens prometidos a Israel demoram a chegar e às vezes parece que Deus está fazendo certa “zombaria” do seu povo. Porém, estes bens prometidos a Israel, segue uma dinâmica semelhante ao trato de um pastor de ovelhas com o seu rebanho.

3. Ovelhas gostam de sal. Quem dá o sal é o pastor. Ele usa este meio para trazer as ovelhas consigo, para criar laços de afeto e confiança, de modo que as ovelhas o sigam até o pasto. Se o sal cessa, as ovelhas se perdem. Em resumo, elas não são nada, sem o pastor. Ai delas se o pastor se desinteressar pelo rebanho, se não lhes der mais sal.
O Senhor é o pastor de Israel. Ele concede progressivamente bens a seu povo, de modo a tê-lo consigo. Ele não esquece o seu rebanho e nem deixa o “sal” acabar. Ele não se esquece, Ele está perto. Ele tira Israel de sua tranquilidade para depois caminhar à sua frente. Ao seguir o Senhor, Israel vê seu próprio caminho e se torna livre.

4. A segurança de Israel está no seu Pastor. A nossa segurança, enquanto membros do Povo de Deus, igualmente eleito, também está Nele, nosso Pastor e Guia. Encontramos a imagem deste Deus apaixonado em Jesus, o Salvador. De fato, Ele nos amou tanto que nos deu seu Filho amado, é o que lemos na Escritura, e em Jesus vemos a Imagem do Pai, sua ação e vida.

5. Nos versículos 17ss do capítulo 5 do evangelho de João, encontramos a resposta de Jesus a este respeito: “Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho” (Jo 5,17).
Os judeus entendem esta fala de Jesus como uma afirmação de sua semelhança com Deus (e de fato, o é), suscitando-lhes raiva e o desejo de matá-lo, ainda mais porque Jesus havia violado a lei do sábado ao curar o paralitico na piscina de Betesda (Cf. Jo 5,1-16).
Jesus prossegue na sua resposta, longa inclusive, na qual expõe três temas:
·        A dependencia de Jesus do Pai nas obras, milagres, juízo e vontade (Jo 5,19-20.30);
·        Sua Igualdade com o Pai, expressa no vivificar e julgar e no receber a mesma honra que o Pai (Jo 5,21-24);
·        Escatologia presente e futura (Jo 5,24-28).
Esta realidade da nossa fé está presente no credo que professamos, na versão niceno-constantinopolitana: “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.
Portanto, a obra de Jesus é obra do Pai; o milagre de Jesus é milagre do Pai. Jesus se revela assim na sua igualdade com o Pai.

6. Encontramos nesta página do Evangelho dois pontos que são essenciais para entendermos este mistério de Jesus e o Pai: O poder de ressuscitar os mortos e o de julgar todos os homens.
O poder de ressuscitar os mortos, segundo o Primeiro Testamento é prerrogativa exclusiva do Pai (Dt 32,2-9; 2 Rs 5,7; Tb 13,2), que o exerce livremente e a seu critério. Este mesmo poder foi dado ao Filho, pois ele ressuscita o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e seu amigo Lázaro.
O pode de julgar todos os homens, deriva do primeiro: tendo o Filho o poder sobre a vida e a morte dos homens, tem necessariamente o poder de dirigir o curso de suas vidas e sancionar suas obras com um destino eterno de felicidade ou condenação.

7. Pois bem, se o Pai é Pastor, o Filho também é.
O Filho é a Palavra do Pai encarnada em nosso meio. O Pastor chama as ovelhas e elas escutam a sua voz. Assim, a Palavra que Jesus Pastor diz é que dá a vida eterna às suas ovelhas que o ouvirem. Quem ouve a Palavra de Jesus, se abre a um processo onde se opera uma verdadeira “ressurreição”, da qual a ressurreição final não é mais que desenvolvimento e manifestação.
Confiemos em Deus e nas suas promessas. Deixemo-nos guiar pelo Pastor de nossas almas e provemos de sua fidelidade e providência, mesmo que pareça que o “sal” não nos chegará mais.


São Paulo, 02 de Abril de 2014
Quarta feira da 4a. Semana da Quaresma

domingo, 5 de agosto de 2012

Viver de fé


Apesar da infidelidade e falta de dignidade dos homens, Deus é aquele que sempre mantém seus compromissos, pedindo ao homem que confie nele. Deus pede a colaboração do homem, dando-lhe como condição de salvação uma fé absoluta em sua palavra. 
Isaias nos narra um confronto entre Acaz, rei de Judá e o rei Rason da Siria e Facéia, rei de Israel (Cf. Is 7,1-9). Quando há guerra, há vitória. Os fiéis de ambas as partes rogam a Deus a vitória. Porém, só um lado pode sair vencedor, o outro lado acaba sentindo-se rejeitado por Deus ou se revolta por não ter sido atendido. 
O mesmo acontece em tantas peripécias humanas, quando se considera Deus como “um poderoso ao nosso serviço”, que basta invocar para que venha em nosso auxílio, curando-nos as doenças ou resolvendo conflitos e tensões que se dão nos mais vastos campos de relacionamento humano. 
Aqui a fé se configura como “barganha”, mas não é esta a fé que Deus exige. Jesus nos ajuda a entender o que é a fé com absoluta certeza quando nos ensina: “Buscai e achareis, batei e ser-vos-á aberto” (Cf. Mt 7,7). Jesus nos mostra que a fé é um abandono total e filial nos braços do Pai, é confiança em seus planos, que são sempre planos de amor, que preveem sempre o melhor para nós, mesmo quando ele permite as borrascas e derrotas, como a que estava para desabar sobre o povo no tempo de Isaías. 
Tudo isso porque Deus prova para purificar. A nós neste processo cabe aprendermos a viver de fé e aprendemos a orar com confiança. 

A fé é dom de Deus e não pode ser repelida. Um dia, afirmou Jesus aos fariseus que ser “filho de Abraão” é uma responsabilidade, mais do que motivo de orgulho (Cf. Jo 8,39). Ou seja, o que conta não é “ser filho de Abraão”, mas viver como filho de Abraão, imitando-lhe as virtudes, sobretudo sua fé. 
O mesmo pensamento é expresso sobre a censura que Jesus faz às cidades onde havia realizado muitos milagres, porque não haviam se convertido (Cf. Mt 11,20-24). Esta censura interessa também à nossa condição: o que conta não é ser membro da Igreja e formar parte do povo de Deus, mas viver como membros da Igreja e como filhos de Deus. 
Mesmo assim, a má conduta dos homens não evitará a condenação, à semelhança das antigas cidades. É preciso a consciência de que é bem maior a responsabilidade dos cristãos nos tempos atuais. Aquelas cidades, punidas por seus muitos pecados, não tiveram a possibilidade de se beneficiar com os prodígios da ação salvífica de Deus, como a temos nós, filhos e filhas do novo povo de Deus através dos sacramentos da Igreja. 

A Palavra de Deus nos impõe um sincero exame: Contentamo-nos com “ter” a fé ou nos esforçamos por “vivê-la”? 
Que o Senhor nos ajude a ter uma fé enraizada em sua Palavra e um compromisso autêntico com a Igreja mediante a fé que recebemos no Batismo. 

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa 
Terça Feira da 15ª. Semana Comum – Ano Par. 17.07.2012 (Memória do Bem Aventurado Inácio de Azevedo e Companheiros Mártires)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Provação, Trigo e Joio

O Povo de Deus estava sendo atormentado pela seca que devastava o país de Israel e pela guerra que ameaçava a sua segurança política. Neste cenário se encontra o profeta Jeremias que está inteiramente sozinho entre a súplica do povo que insiste arrependido do seu pecado e a ardente justiça de Deus. A oração de Israel é humilde e procura obter a benevolência de Deus, reafirmando que somente Ele é Deus, renunciando a idolatria e voltando atrás na Aliança entre Deus e o povo. Neste momento somente o apelo confiante à misericórdia de Deus Criador é a única esperança do povo (Cf. Jr 14,17-22). 
O Povo de Israel se encontra em uma situação de calamidade. Em casos de calamidade quais são as atitudes tomadas? Há aqueles que ficam quase indiferentes a situação. Há outros que se agarram com Deus. Há também aqueles que duvidam da existência de Deus ou do seu amor, caso ele exista. Outros se questionam se Deus não se compraz ao ver a dor e sofrimento dos seus. Há ainda aqueles que suplicam a Deus, mas não de modo sincero, procurando somente o seu interesse pessoal e material. Por fim, existem aqueles que semelhantes ao Povo de Israel, reconhecem haver pecado e pertencer a uma humanidade pecadora, e vê na prova não o castigo, mas a purificação e a Presença de Deus. 
A provação faz voltar a Deus, confiar em sua aliança e em suas promessas; faz pedir perdão e esperar em sua providência. Nós precisamos aprender a reconhecer os nossos pecados, a confessa-los a Deus, que é Pai, através do Sacramento da Penitência, pelo qual a Igreja nos oferece o perdão divino, confiantes de que se o nosso coração ou consciência nos reprovar, “Deus é maior que o nosso coração” (Cf. 1Jo 3,19s). 


Na Parábola do joio e do trigo (Cf. Mt 13,36-43), encontramos o semeador divino e o semeador maligno. Um traz consigo os herdeiros do Reino de Deus, o outro um exército de adeptos das coisas que não agradam a Deus e seus filhos. Nesta parábola lemos a história humana, dividida em dois exércitos opostos. Jesus insiste na descrição do juízo, no qual Ele purificará a sua Igreja de todo mal. O cristão deve ser trigo e não joio. 
Deus é paciente. Se Ele fosse intolerante, o que seria de nós? Ele não é intolerante, mas não pode acolher o mal, por isso o repele. Ele detesta o pecado, mas ama o pecador que se arrepende de coração e quer mudar de vida, mas não pode amar e nem acolher aqueles que se identificam e se entregam ao mal, aqueles que se corrompem por causa do pecado. 
Porém, a última palavra é sempre de Deus, o que constitui uma imensa esperança para todos nós, principalmente para aqueles que são oprimidos pelo mal, mas a Ele aderem; e também uma severa advertência para aqueles que oprimem e são discipulos do mal. O joio oprime e suga o grão bom. Na parábola o Reino é personificado naqueles que aceitam a paternidade de Deus, e o mal é personificado naqueles que o praticam obstinadamente. 
Na realidade atual em que vivemos devemos distinguir com coerência o grão do joio do grão de trigo. Este é um risco muito grande que corremos, principalmente quando nos colocamos a julgar o que é bom e o que é mau ou quando respondemos com a intolerância e a impaciência aqueles que são discipulos do mal ou que o fazem mesmo inconscientemente. Postura de juiz não nos ajuda em nada em nossa conversão. A paciência de Deus que sabe separar o trigo do joio estimula à conversão. 
Devemos entrar na dimensão da “paciência de Deus” e assim vivermos a nossa conversão diária, lutarmos contra as tentações e investidas do mal, certos de que o mal atormentará somente aqueles que o buscarem ou quiserem e afastá-los para sempre de Deus numa decisão bem clara e consciente, ao passo que o bem e a vontade de Deus tornará seus filhos luminosos como Ele e com Ele para sempre.

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa

terça-feira, 31 de julho de 2012

A misericórdia e a vontade de Deus


Quando o Povo de Israel sai do Egito, sente-se como um rebanho em meio a uma floresta ou outro local que se configura longe das pastagens, sente-se desolado, e é desta desolação que nasce a prece ao Senhor Deus que os tirou da escravidão do Egito, Ele que é o Pastor, Guia e Guarda de Israel. Deus conduz seu rebanho aos prados férteis, mostrando-lhe a sua benevolência e renovando sua Presença a cada dia em meio ao seu Povo. Ele se revela um Deus misericordioso que em todo tempo perdoa as culpas do seu povo (Cf. Mq 7,14-20). 
A misericórdia de Deus se torna objeto de louvor na boca de seu povo, representada nas expressões dos Salmos e dos profetas: “Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são restos de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”. (Mq 7,18-19). A grandeza e o poder de Deus são manifestados em sua misericórdia, sobretudo no perdão dos pecados. 
Este “poder” é bem maior que o poder de afogar um exército inteiro no mar. Há em Deus o poder de aniquilar do coração do homem o seu maior inimigo, aquele que pode por a perdê-lo: o mal, o pecado. O abismo no qual pode ser afogado esse inimigo é o abismo da misericórdia do Pai: “Qual o Deus como tu... que se compraz em usar de misericórdia?” (Cf. Mq 7,18). De Deus e do abismo da sua misericórdia temos profunda necessidade. 
Miquéias, na voz de Deus, quer suscitar no coração dos filhos de Israel dispersos pelas suas transgressões e pecados a confiança no Deus que os está reunindo, qual pastor reúne o seu rebanho, após o retorno do exílio. Para nós cristãos, “o exílio do pecado” é coisa passada, desde o momento em que Cristo ressuscitou para a nossa ressurreição e vive para a nossa vida. Porém, nos é necessário também, que como o antigo povo, nos lancemos no abismo da misericórdia do Pai e digamos a Deus com o coração arrependido: “Volta-te e tem piedade de nós!” e fazer o firme propósito de guardar a sua Palavra em nossos corações, em nossas vidas. 

Alguém diz a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo” (Mt 12,47). Diante de sua própria família, Cristo declara uma autentica verdade: A sua verdadeira família são aqueles que escutam e fazem a vontade de Deus: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49-50). 
De modo algum Cristo está rejeitando os seus parentes, mas afirmando uma realidade que faz parte de sua pregação: A escuta da sua Palavra. A escuta, de fato, é indispensável para que se possa acolher a Palavra de Deus, porém, a Palavra escutada deve se tornar realidade na vida de quem a ouve. 
Jesus também não põe em questão a grandeza e a bondade da família humana, mas propõe as bases de uma íntima união com ele: aqueles que fazem a vontade do Pai estão unidos a Ele nos laços mais estreitos e íntimos como os laços familiares. Nasce aqui um parentesco espiritual, que une Cristo e o Pai àqueles que realizam a vontade de Deus em sua vida. 
De Deus vem a vida e todo bem. Aqueles que vivem e fazem sua vontade recebem a plenitude da vida e toda a espécie de bem (dons e graças). Feliz é quem como Maria Santíssima aceita em plenitude a iniciativa do Pai e vive a realidade de sua vontade, goza assim de todas as graças, bênçãos e bens que proveem de tão suma e eterna benevolência e vontade. 

O Senhor nosso Deus nos ajude a cada dia a confiarmos e nos lançarmos no abismo de sua misericórdia e a realizarmos sempre e em primeiro lugar a sua vontade nos dias de nossa vida! 

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa 
Terça Feira da 16ª. Semana do Tempo Comum (Ano Par) – 24.07.2012

sábado, 17 de março de 2012

A Lei de Deus e o Sinal da Aliança

1. Após a Libertação do Egito, Deus estabelece com o Povo de Israel uma Aliança que se concretiza no dom dos Dez Mandamentos. Por isso se diz que a proclamação dos Mandamentos se enquadra no contexto da Aliança. De fato, a proposta de Deus em firmar uma Aliança com seu povo é desenvolvida nos Dez Mandamentos (Cf. Ex 20,1-17). 
Os mandamentos são prova do Amor de Deus por seu povo, manifestado através das mais extraordinárias intervenções na história e na vida do seu “eleito”, são o fundamento de sua fidelidade e do seu amor. Por isso o Decálogo é apresentado como Lei transbordante do amor de Deus, que, depois de haver libertado o seu povo da escravidão material do Egito, quer libertá-lo de toda escravidão moral das paixões e do pecado, para uni-lo a si em amizade e intimidade, numa bondade onipotente e misericordiosa, que espera da parte do homem fidelidade para com o querer divino. 
Os mandamentos são, portanto, caminho de liberdade. Assim a Lei, mais do que uma imposição é vista como um dom: Palavra de Deus dirigida ao homem que espera dele uma resposta, fonte de bênçãos para quem as cumpre fielmente, preço do resgate de todo tipo de escravidão e alienação, meio de crescimento pessoal e comunitário, apelo à interioridade e caminho da comunhão com Deus. 

2. Infelizmente Israel não foi coerente ou condescendente com a fidelidade proposta por Deus através dos mandamentos. Israel se desviou do caminho, abandonou e traiu o Senhor Deus muitas vezes. 
Era preciso então que Jesus viesse não para mudar ou instaurar uma nova Lei, mas restaurar a Lei Antiga, completá-la, aperfeiçoá-la, sobretudo no tocante ao amor e a interioridade por parte do povo. Jesus supera a lei de Moisés ao apelar para a interioridade da mesma, a fim de libertar a Lei e o homem de todo formalismo e práticas vazias, a fim de que o homem seja reconduzido à experiência do amor de Deus. 
Como nos ensina o Evangelho e o Catecismo da Igreja, Cristo resume os dez mandamentos da seguinte forma: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento (1º, 2º e 3º Mandamentos); Amarás o próximo como a ti mesmo (4º, 5º, 6º, 7º, 8º, 9º e 10º Mandamentos)” (Cf. Mt 22,38-39). 
Podemos nos perguntar: Porque Jesus faz isto? 
Porque Ele assim como o Pai nos quer livres! 
Para o Filho de Deus o que importa é a liberdade e não a lei por si mesma. Liberdade que vai levar àqueles que ouvem a lei e a guardam em seu coração ao serviço do Reino, a tornar-se como Jesus, um “Servo por amor” e não “servo por causa da letra”. 

3. É sob esta luz que consideramos o gesto ousado de Jesus a expulsar os profanadores do Templo. Cristo com este gesto ensina que Deus deve ser servido e adorado com pureza de intenção, que as relações dos homens devem ser retas e sinceras, assim como a relação com o próximo, na interioridade e não na exterioridade (Cf. Jo 2,13-25). Em outras palavras, a base destas relações deve ser o amor. 
Jesus ainda refere-se a outro Templo, um de dignidade infinita: “o Templo do seu Corpo”. Aquele que ele afirma “destruir e em três dias reedificar”. Estas palavras só foram compreendidas por seus ouvintes, que num primeiro momento se escandalizaram, após sua morte e Ressurreição. 
Cristo é rejeitado pelos comerciantes, cambistas e sacerdotes do Templo, porém esta rejeição servirá para o nascimento do novo centro do culto divino: não mais o Templo de Jerusalém e as pedras de sacrifício, mas o seu Corpo: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Cristo se faz nova proposta de salvação da parte de Deus para o homem, pois quem quer adorar a Deus em espírito e em verdade deve fazê-lo em Cristo, mediante a fé. 
Através do mistério pascal, Cristo substitui o Templo da Antiga Aliança pelo seu Corpo, um Templo vivo e digno da Trindade, que, oferecido em sacrifício pela salvação do mundo, substitui e anula de uma vez por todas os sacrifícios de animais que eram realizados no Templo de Jerusalém. Depois do Sacrifício do Cristo, nenhum outro tem razão de ser, pois Ele passa a ser o Centro da Nova Aliança, “Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos; mas para os chamados... poder de Deus e sabedoria de Deus” (I Cor 1,23-24). 
O sinal da Aliança não é mais o sangue dos cordeiros oferecidos em sacrifício pelos pecados do povo, mas o Sangue do Cordeiro, o Sangue de Cristo. Por isto, o anúncio da Páscoa deixa de ser a libertação do Egito e passa a ser o Cristo crucificado. A salvação se obtém pela fé na Cruz, que é poder e sabedoria de Deus, porque trouxe em seus braços o único sacrifício capaz de dar a salvação. A via de salvação é uma só: Cristo crucificado que morreu e ressuscitou dos mortos. 

4. Pode acontecer que no culto que prestamos a Deus ou na observância de algum dos mandamentos, olhemos mais para o lado exterior, o lado legalístico, do que para o interior da proposta. Ai é que nascem os pequenos e grandes profanadores do Templo, da religião e da Lei de Deus. 
Deus é o “fiel”. Por isso a Aliança com Ele só pode ser rompida pelo homem. A Aliança que fazemos com Deus deve comprometer toda a nossa vida, para que o derramamento do Sangue do Cordeiro de Deus não tenha sido em vão. Por isso que devemos romper com os fingimentos, com a falsa modéstia, as preocupações temerosas, orgulho e egoísmo e testemunhar com coragem, mesmo diante das ironias e perseguições, que Cristo morreu para que tivéssemos vida e em seu Sangue o Pai sela conosco uma nova e definitiva Aliança para a nossa salvação. 
A nossa Aliança com Deus não pode de modo algum ser reduzida a uma apressada visita dominical à Igreja ou a um passeio turístico e religioso a algum santuário, e nem de devoções externas ou freqüências convenientes aos sacramentos, pois o cristianismo não consta de práticas que devemos cumprir em determinados momentos ou de uma fidelidade periódica. Quem vive assim não está vivendo a Lei do Cristo, mas a sua lei pessoal. 
Para Cristo a Lei é compromisso de amor. Para nós também deve ser compromisso que nos põe a caminho da plenitude e que nos permite recomeçar sempre que cairmos e desde que nos mantenhamos no caminho. O cristianismo não é simplesmente práticas, é compromisso! 

5. O Evangelho nos diz que estava próxima a Páscoa dos judeus (Cf. Jo 2,13) e Cristo com o gesto que faz no Templo, o purifica para que a Páscoa seja celebrada sem mancha, ou seja, renova o culto que era ali prestado a Deus. Aproxima-se também a nossa Páscoa, e a Igreja repete este gesto nos convidando a purificar o Templo do nosso coração para que dele suba a Deus o culto mais puro, sincero e interior. 
Portanto, é tempo de abrir os ouvidos ao chamado de Cristo, que nos comunica a Lei de Deus resumida na lei do seu Amor. A lei humana tem um inicio e tem um fim; a lei de Deus não! A Lei de Deus é regida pelo amor e para o amor não existe um “basta”, não existe limites, ele é sem fim! 
Confortados pela misericórdia de Deus nos lembremos sempre de que “A Lei do Senhor Deus é perfeita, um conforto para a alma, palavras de Vida eterna, testemunho fiel, sabedoria dos humildes, precisa, alegria ao coração, brilhante, para os olhos luz, pura, imutável, correta, justa, desejável, palavra mais doce que o mel” (Cf. Sl 18,8-11). 
Se quisermos ser verdadeiramente livres, o caminho para a Libertação é a Lei do Senhor Deus e o Sangue de Cristo derramado na Cruz. 

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa 
3º. Domingo da Quaresma – (11.03.2012 – Ano B)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Conversão e Fidelidade: Eficácia contra as tentações e o pecado


1. A reflexão quaresmal traz à luz dois aspectos: as etapas fundamentais da História da Salvação e os fatos mais salientes da vida de Jesus até sua morte e ressurreição.

2. O pecado de Adão rompe a amizade do homem com Deus, fazendo com que Deus inicie uma série de intervenções para reconduzir o homem ao seu amor. Dentre estas intervenções destaca-se a Aliança com Noé e o fim do dilúvio, quando o patriarca oferece ao Senhor, em terra enxuta, um sacrifício de ação de graças pela salvação alcançada para ele e seus filhos (Cf. Gn 9,8-15).
A humanidade é purificada pelas águas do dilúvio e nasce como “nova”. A promessa de Deus é que nunca mais outro dilúvio ou outro fator de sua parte sucumbirá com a humanidade. Deus volta ao principio da Criação e mais uma vez quer entrar em relação com o homem e lhe oferece um pacto, uma Aliança. Para Ele esta aliança deve ser universal e eterna: “Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência” (Gn 9,9). 
Deus promete não romper a Aliança: “Então eu me lembrarei de minha aliança convosco e com todas as espécies de seres vivos. E não tornará mais a haver dilúvio que faça perecer nas suas águas toda criatura” (Gn 9,15). Deus promete observar a Aliança, mas e o homem?
Deus é amigo do homem, e não seu adversário. Ele propõe a Aliança e a mantém, apesar de nossa infidelidade. Ao contrário do homem, o amor e a fidelidade de Deus são de sempre e para sempre. Porém, há um meio eficaz, mesmo sendo infiéis e inconstantes, de renovarmos a Aliança com Deus: a Eucaristia. O sinal da Aliança não está mais no arco-íris, mas no Sangue de Cristo, derramado por amor de nós e para a nossa salvação.

3. O Apóstolo Pedro exorta os cristãos ao sofrimento a exemplo de Cristo Jesus (Cf. I Pd 3,18-22). 
A catequese de Pedro contém os elementos essenciais da profissão de fé que realizamos todos os domingos: Jesus morreu por nossos pecados, desceu aos infernos e ressuscitou para nos reconduzir a Deus. Segundo Pedro, todo este “caminho” que Jesus percorreu da morte a ressurreição se realiza em nós, pelo batismo, que ele explica como “purificação”, usando do simbolismo do dilúvio, que torna o homem apto a viver uma vida virtuosa, segundo a fé, a Palavra e a vontade de Deus.
As águas do batismo, enquanto destroem o pecado – como as águas do dilúvio haviam destruído os homens pecadores – nos salvam em virtude da Ressurreição de Jesus Cristo. O cristão muito mais do que Noé, é um remido através da água: não por meio do lenho da arca, mas por meio do lenho da Cruz do Senhor, em virtude de sua morte e ressurreição. Por isso o tempo da Quaresma desperta no cristão a recordação do batismo, que o purifica do pecado e o faz viver na fidelidade do Senhor, renunciando a Satanás para somente viver para servir a Deus.

4. Neste sentido torna-se oportuna a cena do deserto, onde Jesus luta contra Satanás e repele as insinuações contra Ele feitas.
Marcos, ao contrário dos outros evangelistas (Mateus e Lucas), não se detêm a descrever as tentações, mas as apresenta muito brevemente com apenas estas palavras: “E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto. Ai esteve quarenta dias e foi tentado pelo demônio” (Mc 1,12-13). 
Marcos apresenta Jesus tanto na pregação do Batista como no seu batismo com sinais evidentes da sua messianidade: Ele é investido da força do Espírito Santo para realizar a sua missão. Por isso que ao narrar imediatamente após estes fatos da vida de Jesus as tentações no deserto, entendemos que Marcos vê como ponto fundamental na missão de Jesus a luta contra Satanás. 
Assim como no Jordão quis Jesus juntar-se aos pecadores, como se fosse um deles, necessitado de purificação, assim também no deserto quer fazer-se semelhante a eles até na tentação, extremo limite consentido pela sua santidade e natureza divina. Aceitando a luta contra Satanás, da qual sai vitorioso, Jesus mostra que veio para libertar o mundo do domínio do príncipe das trevas, ao mesmo tempo em que mostra ao homem que ele também pode vencer o tentador.
Ao vencer o demônio Jesus anuncia a salvação, a realiza e dá inicio ao tempo do Reino de Deus: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Diante desta realidade eminente, Cristo exige do homem mudança de mentalidade, ou seja, uma conversão que proceda da fé.

5. Cristo é levado ao deserto pelo Espírito Santo, a fim de se preparar para a sua missão, por isso deixa os hábitos cotidianos, o ritmo de vida, os laços de família e amizade, para seguir um caminho que conduzirá à sua Páscoa. Esta vivência do Cristo no deserto na companhia do diabo já é uma antecipação do sacrifício de sua vida por amor de nós.
A fidelidade de Jesus ao Evangelho que Ele vai anunciar é posta á prova, antes mesmo de o anúncio começar. A nós, o anúncio do evangelho é feito em termos que nos levam a pensar que o Reino de Deus está presente, por isso a necessidade de mudarmos de vida e fazermos o que a realidade do Cristo Jesus nos propõe. Talvez seja essa a maior provação a qual somos submetidos: mudar de vida e fazer a vontade do Senhor, por isso só há um caminho, a Conversão!
A conversão é caminho de libertação, e quando o homem se esforça para trilhá-lo acaba encontrando o perigo das ilusões, e pode até perder-se na aspiração pela conversão em atos exteriores e práticas vazias. A conversão deve envolver “todo o homem”, não só como renúncia ao pecado, mas como nova orientação ao futuro. Isto se chama mudança e implica freqüentemente em crises de fé, em “estágios de deserto”, que não terminam no desespero, mas na mais profunda experiência de Deus.

6. Estamos prontos a crer no Evangelho? A cortar o que ficou para trás e levar a sério a Aliança que temos com Deus? A viver com consciência limpa? A deixar-se conduzir pelo Espírito Santo aonde Ele o quiser e a percorrer o caminho de Cristo rumo à sua Páscoa, com disponibilidade e todas as exigências de uma autêntica conversão? É possível tomar esta postura em tempos tão atribulados?
De fato, este nosso tempo é um verdadeiro “dilúvio”, onde se salvam os que, como Noé, não estão satisfeitos com o bem-estar alcançado por sua civilização, e crêem na Palavra de Deus, mesmo a custa de enfrentar o ridículo de construir uma arca. Salvam-se os que, como Cristo, deixam tudo para, com Ele, construir uma humanidade nova. Salvam-se os que crêem no Evangelho. Salvam-se os que deixam ser guiados pelo Espírito Santo. Salvam-se os que se abrem a um verdadeiro e autêntico processo de conversão. 
A conversão ao Cristo Jesus deve se exprimir em todos os campos e todas as relações, um passo a cada dia, interrogando-se sempre sobre o que pode se fazer, e o desejo de querer fazê-lo para o alcance da salvação. 

7. A Quaresma nos convida a crer no Evangelho, portanto, a nos libertar de todo ídolo e mitologia, a confiar plenamente no Cristo e em sua Palavra, a engajar-nos no caminho por Ele indicado, passando pelo sacrifício e a Cruz, visando a atingir a libertação da Páscoa, a ressurreição.
O cristão não está isento das tentações, pelo contrário, muitas vezes quanto mais se esforça para servir a Deus com fervor, tanto mais se esforça o demônio para impedir-lhe o caminho, como quis impedir a Cristo de cumprir a sua missão redentora. Por isso o cristão deve recorrer às armas usadas pelo próprio Jesus no combate com o demônio: penitência, oração e perfeita conformidade à vontade do Pai. Podemos resumir estes três aspectos como fidelidade, e quem é fiel à Palavra de Deus, quem dela se alimenta constantemente, não poderá ser vencido pelo Maligno, jamais.
A conversão e a fidelidade a Deus são armas eficazes na luta contra as tentações e o pecado. A conversão nos motiva a voltar ao estágio original que é a perfeição; a fidelidade a Deus, Cristo nos ensinou, nos mostrando que aquele que é fiel a Deus, por Ele é honrado num batismo que sepulta a nossa morte e nos dá uma nova vida, plena e ressuscitada em Cristo Jesus.

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa
Primeiro Domingo da Quaresma (Ciclo A) – 25.02.2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Profecia: Dom, Testemunho e Incômodo

O livro do Deuteronômio traz à luz diversos temas: os deveres do rei, a obediência a Lei de Deus, o sacerdócio Levítico e o profetismo, dentre outros temas. 
Em relação ao profetismo, o Deus de Israel promete suscitar entre o povo, profetas (Cf. Dt 18,15-20) que dêem continuidade à mensagem de Moisés, considerado o primeiro profeta do Antigo Testamento. 
O profeta é aquele que fala em nome de Deus, que não tem comprometimento com o poder político ou religioso, pois é exclusivamente um “porta-voz” de Deus: “Farei surgir para eles, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante a ti. Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar”. (Dt 18,18). 
Por isso o profeta é mediador do Absoluto, portador fiel da Palavra de Deus e não um adivinho ou vidente, pois o profetismo está inserido na necessidade do anúncio da Palavra de Deus e leva o homem a encontrar-se com a verdade e a vontade de Deus. 
O profeta é aquele que incomoda, pois denúncia com freqüência tudo o que afasta o homem da vontade de Deus, como os falsos valores e a falsa moral, a mentira, os hábitos vazios, o culto externo e aparente cheio de hipocrisia e injustiça, quando este ultima deveria ser feito com amor e tendo uma finalidade só: a maior glória de Deus. 
O profeta é aquele que vem para “mexer” na zona de conforto do homem, pois ele é constituído por Deus “para arrancar e demolir, para destruir e abater, para edificar e plantar” (Jr 1,10). 
Por isso que se diz que um profeta nunca é bem recebido em sua pátria, pois ele causa mais desencontro do que encontro, ele vem para incomodar, torna-se perigo para aqueles que estão somente atentos à sua própria vontade e deixam de lado a vontade e a verdade de Deus. 
Devemos tomar cuidado, portanto com aqueles que são falsos profetas, que pensam portar a Palavra de Deus, quando apenas ecoam palavras humanas e usam da Palavra de Deus para se auto-promover (Cf. Dt 18,20). 

Jesus é o grande profeta. Em Cristo encerram-se as profecias do Antigo Testamento e inicia-se o tempo das promessas, pois é Nele em que se revela e se realiza o plano de Deus sobre a humanidade. 
O evangelho nos deixa claro que Jesus ensina com autoridade e é esta mesma autoridade que o fará realizar os milagres, curas, sinais, como sinais proféticos de sua missão e da edificação do Reino de Deus (Cf. Mc 1,21-28). 
Junto a esta realidade está a Promessa de um novo tempo, uma nova realidade, um novo povo nascido e marcado pelo seu Sangue derramado na Cruz. 

Os profetas de hoje, quem são? Somos nós que fazemos parte da Igreja, que portamos e vivemos a Palavra de Deus e somos chamados a ser pelo testemunho “sinais proféticos” para este mundo da comunhão necessária com Deus para a salvação. 
O Espírito Santo nos motiva a denunciarmos profeticamente o mal e a violação dos costumes morais e cristãos, as ideologias que tiram do centro da vida do homem e a vontade e a verdade de Deus, as explorações mais diversas e a falta de respeito à vida e a dignidade humana. 
Se posicionando deste modo, com ousadia e audácia, nós que somos Igreja, seremos mais que profetas, seremos nos lábios do Cristo a própria profecia que clama ao mundo por fidelidade, conversão e santidade. 

A profecia é dom de Deus à Igreja, um dom que incomoda, pois acusa o nosso comodismo ao mesmo tempo em que nos convida a deixarmos as nossas seguranças e ídolos. E é necessário fazer este caminho para alcançarmos a salvação. 
Por isso peçamos ao Pai que suscite em nós o espírito de profetas e que Ele envie à sua Igreja muitos profetas, que sejam sinal de santidade e nos ajude cada vez mais a termos coragem de ouvir e por em prática a Palavra de Deus, fonte de vida e verdade. 
Não tenhamos medo de “profetizar”, de incomodar, pois quando estivermos incomodando este será o sinal de que estamos vivendo e realizando a Vontade de Deus. 

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa 
4º. Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 29.01.2012

Imagem:  Profeta Isaías tendo os lábios tocados pelas brasas do altar

domingo, 15 de janeiro de 2012

Vocação: Deus chama. A nossa resposta: o testemuho

As narrativas de chamado estão entre as mais vivas e impressionantes páginas bíblicas, pois elas nos revelam Deus em sua majestade e mistério que quer contar com o homem em tudo que o mesmo homem é: um misto de verdade, medo e generosidade, levando em conta, inclusive, as possibilidades do homem quanto à resistência e aceitação diante do chamado de Deus. 
Estamos falando de vocação, e vocação é chamado: Deus chama, ao homem cabe responder... Na vocação humana quando respondida afirmativamente se faz presente à vontade e o plano de Deus. 

Todo homem que se encontra no mundo está em estado de vocação, ou seja, é chamado por Deus. Nos acontecimentos da vida humana Deus chama cada homem e mulher à existência para esta vida e a participar de um plano de amor “particular” que Ele prepara a cada um dos seus filhos. 
Assim como a existência de cada um, a vocação também é um chamado pessoal, pois da mesma forma que Deus nos dá a existência de modo particular e a cada um, Ele também fala (chama) pessoalmente a cada um. 
Deus nos fala, nos chama, e ao ouvir sua voz, a nossa parte é descobrir a nossa vocação, passo que nos leva a compreender o plano de vida que Deus tem para cada um de nós, porque a iniciativa é sempre Dele: É Ele que chama! 

Ele nos chama pelo nome, assim como chamou a Samuel, que em um primeiro momento não compreendeu o que se passava, tanto que ele achou que era o sacerdote Eli que o estava chamando, que, por sua vez entendeu que era o Senhor que chamava Samuel e o orientou a responder com disposição àquela voz (Cf. I Sm 3,3-9). 
Embora consagrado a Deus desde o ventre materno (Cf. I Sm 1,9-20), Samuel ainda não conhecia o Senhor, embora penetrasse no mistério pouco a pouco por habitar no Santuário e ser instruído por Eli, mas, ainda não havia tido uma experiência pessoal com o Senhor. 
Uma vez que Samuel compreendeu que aquela voz era o Senhor que o chamava, se põe disponível. Chamado pelo nome ouve a Deus e brada: “Fala, que teu servo escuta” (I Sm 3,10c). Pronto! A experiência pessoal com o Senhor aconteceu: Ele chamou, Samuel respondeu, e posteriormente ele será constituído profeta do Povo de Deus. 

Deus também nos chama pelo nome e nos convida a viver uma vocação fundada em seu plano de amor e em sua vontade. 
Independente de como a vocação irá se desenrolar em nossa vida, a resposta deve ser a mesma de Samuel: “Fala Senhor, que teu servo escuta”, ou simplesmente “Eis-me aqui para fazer a vossa vontade” (Cf. Sl 39,8-9), ou ainda como Maria: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Cf. Lc 1,38), tendo em mente três elementos fundamentais: 

1º. Vocação é serviço, é missão; é colaborar com Deus em seu plano de salvação, pois a vocação de cada um se encontra na vocação de um só povo, a Igreja – a Eleita – chamada a ser luz para as nações; 

2º. Vocação é resposta a Deus, não “em palavras”, mas a resposta é a própria pessoa em sua identidade e auto-realização; é fidelidade a si e a Deus na vivência da Palavra, dos sacramentos e dos costumes e valores cristãos, pois assim Deus a chamou a “SER” instrumento do seu amor. 

3º. Todo homem pertence a Deus, pois traz em seu corpo o Santuário do Espírito Santo (Cf. I Cor 6,19). Portanto, é chamado a responder com a vida. 

João Batista veio para dar testemunho da luz, que é Cristo, e o aponta dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36). Aceitar o testemunho do batista significa seguir e buscar a Jesus, como fizeram seus discipulos. O testemunho destes, por sua vez, atrai Pedro e outros e assim sucessivamente. O desejo dos discipulos é “ficar com Jesus”, por isso perguntam onde Ele mora e diante da resposta “Vinde ver”, passam a seguir Jesus. Aqui encontramos “traços” de vocações que se abriram ao contínuo aprofundamento da fé, a partir da experiência do encontro pessoal com Jesus. 
Portanto, vocação também é testemunho! Testemunho firme e engajado, que “contagie” os que estão a redor e os põe igualmente no seguimento de Jesus. Aliás, vocação sem testemunho não é vocação, pois como diz o ditado popular: “palavras movem, testemunhos arrastam multidões”. 
Faz parte de nossa vocação testemunhar, ou seja, apresentar a outros “este Jesus que mudou nossas vidas”, para que a vida de outros sejam transformadas e assim por diante outros e outros sejam transformados pelo Senhor. Este é o poder do testemunho, quando encarnado à vocação. 

Na Eucaristia está a conclusão da nossa resposta ao chamado de Deus. Em cada Eucaristia renovamos a nossa resposta ao chamado de Deus, que nos chama pelo nome a colaborar com o seu plano de salvação, testemunhando o que Ele fez em nosso favor e confirmando a nossa vontade, empenho e compromisso de realizar a missão para a qual Ele nos chamou. 
Que assim, sem reservas, esgotemos nossas vidas! 

Sem. Rodolfo Marinho de Sousa 
2º. Domingo do Tempo Comum – Ano B (Evangelista São Marcos) 
São Paulo, 15 de Janeiro de 2012.

domingo, 28 de agosto de 2011

"Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? (Mt 16,26)

Reflexão da Palavra de Deus no 22o. Domingo do Tempo Comum - Ano A.

"O chamado profético não é um chamado à tranquilidade, mas, um chamado ao incômodo. O profeta é aquele que anuncia a verdade, desmascarando as mentiras. É aquele que se deixa seduzir por Deus e como Jesus toma uma posição que não compreende espécie alguma de limites. Dentro deste "quadro" que a Liturgia deste domingo nos apresenta, encontramos uma das exigências fundamentais para quem quer seguir a Cristo: a renúncia! Exigência esta que vem de confronto às nossas escolhas e vontades, que exige de nós uma postura e decisão, que nos coloca no seguimento do Cristo, "carregando nós também a nossa cruz" e que constantemente nos questiona: 'Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?'".

Ouça na integra a reflexão da Palavra de Deus para este domingo.


Deus abençoe a todos!
Sem. Rodolfo Marinho de Sousa.

domingo, 5 de setembro de 2010

A Humildade: Escolha do Último lugar


“Ó Senhor, sois glorificado pelos humildes”
(Eclesiástico 3,20)

1. Vamos meditar sobre a virtude da humildade.
O Dicionário da Língua Portuguesa define humildade “como uma qualidade do humilde, a capacidade de reconhecer erros, defeitos ou limitações e ainda como demonstração de respeito”. Ao falar do humilde diz que é “aquele que tem humildade, que é simples e modesto”. E por fim, define “humilhar” como submeter-se, render-se, prostrar-se. O Catecismo da Igreja define a humildade como “purificação do coração” (Cf. CIC 2779). Por fim, segundo a Palavra de Deus, que ilumina todos estes conceitos, a humildade é condição de relacionamento sincero do homem com Deus.

2. A humildade é uma virtude oportuna a todo ser humano, porém, cada vez menos compreendida e menos praticada.
O livro do Eclesiástico nos fala da humildade como uma necessidade nas relações com Deus e o próximo (Cf. Eclo 3,19-21.30-31).
A humildade, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em negar as próprias qualidades, mas reconhecer que as mesmas são dom de Deus – quanto mais alguém for rico de dotes, tanto mais se há de humilhar, reconhecendo que tudo foi dado por Deus: “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios”. (Eclo 3,20). Deus é condescendente aos humildes, ou seja, é próximo e fiel, conhece a verdade do seu coração, pois, a humildade de seus filhos e filhas o agrada e o glorifica (Cf. Eclo 3,21).
O contrário da humildade é o orgulho, a soberba, a ambição. 
A humildade atrai o homem ao amor, o orgulho o repele. Quando o homem deixa enraizar-se em si a soberba, é como se ele adquirisse uma segunda natureza, de modo que não é capaz de controlar sua malícia, e muitas vezes também se torna incapaz de emendar-se, fazendo com que no lugar do amor generoso em seu coração nasça a ambição. O livro do Eclesiástico também configura bem esta realidade: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende”. (Eclo 3,30) 

3. Jesus condena toda forma de orgulho, soberba e ambição.
Ao ser convidado para uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus, além de perceber as más intenções do convite, Jesus percebe também que os convidados se precipitam em escolher os primeiros lugares na mesa (Cf. Lc 1,1-7). Uma cena no mínimo ridícula e desagradável, mas, infelizmente real. Parece que um simples lugar tem o poder de tornar alguém melhor, mais brilhante e importante. Aqui cabe um questionamento: Poderá um simples lugar tornar o homem maior, ou melhor?
A vida de muitos, mesmo cristãos, se reduz à corrida, à competição e à luta pelos primeiros lugares, que traz em si motivos de justificação que vão do “em nome do bem maior”, “por amor ao apostolado” e “até em favor da glória de Deus”. Quem tem coragem de se examinar a fundo descobre que tais “corridas” não passam de pura vaidade.
Aqui, a primeira lição de Jesus: “Quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 7,10-11).
Primeiro, o ultimo lugar não é condição, é escolha. Segundo, a sabedoria de Deus é infusa no coração do humilde. Jesus é a sabedoria de Deus, e, certo disto, fala aos fariseus a respeito de uma virtude que eles desconhecem: a humildade, que escolhe o último lugar, seguida do amor gratuito que escolhe os desprezados.

4. A segunda lição de Jesus é dirigida a quem o convidou àquela refeição: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”. (Lc 7,12-14).
Esta segunda lição se aplica perfeitamente a nós também. Muitas vezes reservamos “nossos convites” para as pessoas que honram a nossa dignidade ou aquelas das quais podemos esperar ou tirar vantagens. Esta é uma conduta até normal à nossa humanidade, pois a maioria dos relacionamentos hoje, quase sua totalidade, são conduzidos e edificados pelo interesse, o que é uma conduta inspirada por vaidade e egoísmo.
Somos humanos, podemos até proceder deste modo, mas, precisamos nos lembrar de que somos “discípulos de Cristo”, e, o discípulo de Cristo é desinteressado nas paixões e recompensas deste mundo, e ao contrário do mestre dos fariseus do Evangelho, convida ao banquete os “pobres, entrevados, coxos e cegos”, aqueles que não podem retribuir o convite. Assim, o cristão é honrado e “bem aventurado” porque irá receber como recompensa a ressurreição!
Estas devem ser também as características de toda a Assembléia Cristã, que não pode se portar de modo algum como uma casta de privilegiados e nem ser concebida como “comunidade fechada e destinada a certas categorias de pessoas”. Por vezes nos deparamos com “perfis” de comunidades fundadas mais nos laços de amizade e interesses do que nos laços da fé. Se isto acontece, é preciso que a comunidade no seu todo se converta, tome uma decisão que supere estes obstáculos, para ser assim sinal do Reino de Deus, onde as diferenças não têm lugar. Estamos falando de uma Igreja aberta a todos, aos que tem algo, e também aos que não tem nada. Uma Igreja que sabe e ensina que no céu o banquete será para todos, sem distinção, e que se esforça ao máximo para antecipar esta realidade aqui na terra.

5. Lembremo-nos por um momento do grande exemplo de humildade que o próprio Senhor Jesus nos deu ao lavar os pés de seus discípulos na ultima ceia (Cf. Jo 13,1-5), a Escritura nos diz que Jesus “Depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e perguntou-lhes: Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,12-15).
O Mestre de todas as virtudes é Jesus. Arrisco dizer que Ele é Mestre em especial na virtude da humildade. São Paulo retrata bem este perfil de Jesus ao dizer que “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8).
A Cruz de Jesus é sabedoria de Deus (Cf. I Cor 1,23-25). Sua morte não é o fim, mas, o inicio de um novo povo, o novo Israel, unido em seu amor manifestado na Cruz, convertido e justificado por este único e definitivo sacrifício. Converter-se à sabedoria de Deus é crer na cruz, é purificar o coração, é render-se totalmente a Deus – é ser humilde.
Ao escolher a Cruz, o Senhor Jesus escolheu o último lugar, para que Deus, o Pai, o exaltasse como o Primeiro dentre todos: “Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor”. (Fl 2,9-11).
Ao escolher a Cruz, Cristo quis nos revelar que amamos, quando, como ele, damos a vida pelos irmãos; que estamos na verdade quando sabemos examinar a nós mesmos e a realidade a nossa volta com liberdade e na certeza do amor difundido na sua Cruz. A sabedoria que vem de Deus e da Cruz do Cristo nos congrega em uma só mesa, onde não há diferenças e nem posições, onde Deus é o anfitrião e tudo em todos.

6. “Escolher o último lugar significa usar o próprio lugar para o serviço dos últimos, e não para o seu domínio ou proveito pessoal”.
Talvez seja impossível mudarmos a tal ponto a nossa mentalidade à cerca destas coisas, a não ser que estejamos profundamente convictos de que os valores terrenos só têm valor na exata medida em que se ordenam aos valores eternos!
A vida cristã perfeita consiste em duas coisas: na concórdia e união entre os irmãos e na consagração a Deus. A consagração a Deus indica que o cristão pode chegar diretamente a Deus e participar da alegria da eternidade, e, obter a salvação por meio de Jesus Cristo. Isto nos faz lembrar de que aqui nesta terra somos estrangeiros, e de que nossa vida aqui é apenas uma peregrinação para a “cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial”, onde os justos, os humildes, os caridosos, “estão inscritos” (Cf. Hb 12,22-23).
Que o Deus do universo, derrame em nossos corações o seu amor e estreite em nós os laços que a Ele nos unem, a fim de que conservemos em nós o que é bom. Que Ele também nos ajude a escolher sempre o ultimo lugar e assim nos ajude a chegar a graça da salvação, não pelos nossos esforços, mas, pela graça que Ele nos alcançou na Cruz do seu Filho.

“Humildes, vede isto e alegrai-vos,
o vosso coração reviverá!”
(Sl 68,33)

Rodolfo Marinho de Sousa
Texto escrito para a Celebração do 22º. Domingo do Tempo Comum, Ano C.
Embu, 29 de Agosto de 2009.

sábado, 4 de setembro de 2010

Fé e Vigilância

“A pregação a respeito da cruz é uma insensatez para os que se perdem,
 mas para os que se salvam, para nós, ela é poder de Deus.”
(I Cor 1, 18)


1. Deus em sua infinita sabedoria decidiu salvar o mundo pela Cruz de seu Filho Jesus Cristo. Paulo em sua pregação proclama que a Cruz que é loucura para os homens para nós ela é poder de Deus. Quando dizemos que a Cruz é sinal da Salvação, e quando Paulo afirma que ela é poder de Deus, na verdade, colocamos em evidência a graça divina presente em Cristo Jesus, que é a única que salva aqueles que crêem.
Com este belo discurso a respeito da Cruz (Cf. I Cor 1,17-25), Paulo diz à comunidade de Corinto que o cristão não procura por sinais demasiados para alicerçar a sua fé, ou seja, para crer em Deus, em Cristo e na sua Cruz não é necessária a sabedoria humana, pois, não é a inteligência que salvará o homem, mas, o Cristo crucificado, verdade de Deus e realidade concreta de salvação.
Uma condição para a salvação é a fé, que o mesmo Paulo ensina que é um modo de possuir o que ainda não se tem e de ver as realidades que não se vêem (Cf. Hb 1,1-2). Quem cultiva sua fé é feliz em crer na mensagem da Cruz. Uma mensagem de esperança e vida, que perpassa toda a nossa história e dá sentido às noites mais escuras que podemos viver nesta vida.
A fé nos ajuda a “crer sem ver”, e é também ela que ilumina as trevas deste mundo e da nossa vida, nos faz sentir a presença sensível de Deus perto de nós, e nos possibilita enxergar o renovo de Deus todos os dias.

2. A fé vem acompanhada da vigilância.
Todos nós conhecemos a parábola das Dez Virgens (Cf. Mt 25,1-13). O coração desta parábola é o último versículo em que diz “Vigiai, pois não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Pois é, ninguém sabe nem o dia e nem a hora da manifestação definitiva de Cristo, por isso, na fé e pela fé aguardamos e vigiamos.

3. A parábola das Virgens é uma alegoria das núpcias de Cristo com sua Igreja, assim nós devemos lê-la e interpretá-la.
Na parábola, a Festa de Casamento é imagem do Reino de Deus.  O noivo é Jesus. As dez virgens são a imagem da Igreja - sabemos que à Igreja de Cristo pertencem bons e maus, sábios e tolos, que vão ao encontro do Senhor, uns na fiel vigilância, outros na infidelidade e inconstância. O azeite é o amor ou a caridade, que constitui a nossa vocação fundamental e também é condição para o ingresso na eternidade. No casamento representado na parábola se dá a união definitiva de Cristo (esposo) com a Igreja (esposa), marcada pela sua triunfante volta, que aguardamos.
 No relato da parábola, as virgens previdentes adentraram à festa, ou seja, ao Reino de Deus; as virgens imprudentes não conseguem entrar e ouvem as palavras mais duras do Evangelho: “Não vos conheço”, ou seja, são separadas totalmente do Reino de Deus, são repelidas porque não conservaram em seus corações acesa a chama da fé vigilante.

4. Diante desta Palavra do Evangelho devemos nos examinar.
Muitas vezes o nosso corpo está belo por fora, mas por dentro está morto o amor e a esperança, e a certeza da salvação que Cristo nos alcançou na cruz. Por inúmeros motivos deixamos de esperar, confiar e vigiar. Esquecemos-nos que o nosso Salvador vem vindo e não nos quer dispersos, mas deseja nos encontrar prontos, preparados, unidos como Igreja, com o coração ardendo de desejo pela eternidade.
Se há algo que ninguém pode fazer por nós, é amar. Para o amor fomos criados, e é no amor que nos uniremos a Cristo na eternidade. Por isso faz parte da vigilância o amor a Deus e a suas coisas e o amor aos irmãos. Devemos amar não por hábito ou de modo cômodo, ou até mesmo por capricho, mas, de coração e com a vida.
Cultivar o óleo em nossas lamparinas para que sua chama não se apague é esperar vigilantes e ativos o encontro com Cristo. Lembremo-nos sempre de que no céu, a festa de casamento é somente para Deus e aqueles que são seus filhos, ou seja, que se prepararam para tal.
Se não estamos prontos, nos preparemos, pois em breve Jesus chegará e nos levará á Presença do Pai: “Vigiemos, ninguém sabe o dia e nem a hora...”.

Rodolfo Marinho de Sousa
Texto escrito para a Celebração da Sexta feira da 21ª. Semana do Tempo Comum.
Embu, 27 de Agosto de 2010 – Memória de Santa Mônica.


Imagem retirada de http://fabianapaula.wordpress.com/category/especial-parabolas-de-jesus/
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