"Senhor, tua Palavra é luz no meu caminho e lâmpada para os meus pés! Creio que por meio da tua Palavra o Universo se formou; Creio que por meio da Tua Palavra a terra se firmou; Creio que Tua Palavra, o Verbo Eterno, se encarnou em nosso meio: Jesus, és a Palavra Viva de Deus Pai, Palavra que permanece viva em nosso meio, e continua a ser inspirada e renovada pelo Santo Espírito. Tudo pode passar, as ervas podem secar, as folhas podem cair, o céu e a terra passar, mas, tua Palavra meu Deus, jamais passará. E enquanto eu viver quero emprestar minha voz a Ti para que continueis falando ao coração dos homens e mulheres deste tempo! Fala-me Senhor, fala em mim Senhor, fala por mim Senhor!"
A quarta e última parte da Didaché traz um tom escatológico em seu conteúdo: Os cristãos vivem continuamente a espera da manifestação plena de Jesus e seu projeto, o que se realizará no fim de toda a História, conforme professamos, é a “vida do mundo que há de vir”. Porém, é preciso a consciência de que é no momento presente que esse “final” vai pouco a pouco sendo construído. Os primeiros cristãos encontraram na espera a perseverança de um dia poder contemplar o Grande Dia em que todas as coisas serão reunidas em Jesus no mundo futuro.
“16,1Vigiem sobre a vida de vocês. Não deixem que suas lâmpadas se apaguem, nem soltem o cinto dos rins, Fiquem preparados, porque vocês não sabem a que hora o Senhor nosso vai chegar. 2Reúnam-se com freqüência para procurar o que convém a vocês. Porque de nada lhes servirá todo o tempo que vocês viveram a fé, se no último momento vocês não estiverem perfeitos. 3De fato, nos últimos dias, os falsos profetas e os corruptores se multiplicarão, as ovelhas se transformarão em lobos e o amor se transformará em ódio. 4Crescendo a injustiça, os homens se odiarão, se perseguirão e se trairão mutuamente. Então aparecerá o sedutor do mundo, como se fosse o Filho de Deus, e fará sinais e prodígios. A terra será entregue em suas mãos e cometerá crimes como jamais foram cometidos desde o começo do mundo. 5Então toda criatura humana passará pela prova de fogo, e muitos ficarão escandalizados e perecerão. Contudo, aqueles que permanecerem firmes na fé serão salvos por aquele que os outros amaldiçoam. 6Então aparecerão os sinais da verdade. Primeiro, o sinal da abertura no céu; depois, o sinal do toque da trombeta e, em terceiro lugar, a ressurreição dos mortos. 7Ressurreição sim, mas não de todos, conforme foi dito: "O Senhor virá, e todos os santos estarão com ele". 8Então o mundo verá o Senhor vindo sobre as nuvens do céu”. (Didaché 16,1-8). (Cf. Mt 7,15. 24,10-13.24.30-31.41-44. 25,13. 26,64; Lc 13,35; I Cor 15,52; I Ts 4,16; II Ts 2,4-9);
A comunidade dos primeiros cristãos tem o seguinte entendimento: Quando Jesus voltar, Ele vai chegar bem no momento em que a comunidade estiver colocando em prática o seu projeto. Por isso se faz tão necessária à vigilância, que se dá, sobretudo nos momentos em que a comunidade se reúne na fé e na esperança para discernir como irá realizar o projeto do Salvador, respondendo aos problemas e desafios do ambiente em que ela vive.
É certo, que desde aquele tempo, as comunidades cristãs vivem na história em constante prova de fogo, porque enfrentam na caminhados muitos projetos contrários ao projeto de Jesus. É neste momento que se identifica quem faz valer o seu testemunho cristão, pois é no meio de conflitos e lutas que o testemunho do cristão deve brilhar, enquanto a comunidade segue discernindo para fazer a coisa certa no momento certo (Cf. Mt 5,14-16)
Através do testemunho cristão também que vão aparecendo os sinais da verdade. O significado da abertura no céu permite que os cristãos compreendam o que acontece na história, porque são capazes de enxergar com os olhos de Deus. Compreende-se assim que o julgamento, simbolizado pelo toque da trombeta se realiza através do testemunho, e aquele que testemunhar até o fim ressuscitará como Jesus ressuscitou, pois a ressurreição é a coroa da glória reservada pelo próprio Cristo àqueles que com Ele se comprometem e com o seu projeto.
A comunidade cristã primitiva acreditava piamente que seria deste modo que Jesus apareceria vitorioso sobre as nuvens do céu, unindo à sua glória todo homem e mulher que testemunhando seu Evangelho fosse força de transformação no mundo. Quando Jesus despontar nos céus, e nós cremos nisto, o projeto do Pai estará plenamente realizado. Naquele dia feliz da Parusia haverá liberdade e vida para todos, através do exemplo da comunidade de fraternidade e partilha.
Daí a necessidade de ao lermos e estudarmos a Didaché, olharmos para a realidade da nossa comunidade e identificar os pontos que precisamos melhorar ou aperfeiçoar, para que esta escatologia já presente nas primeiras comunidades cristãs não seja algo distante de nós, mas se faça presente desde agora em nossas vidas e nas nossas comunidades, através do nosso testemunho fiel de que Jesus, o vencedor continua vivo e presente no meio de nós! Maranata, Vem Senhor Jesus!
C.Terceira Parte: Verdadeiros e falsos pregadores.
(Capítulos 11 a 15)
A terceira parte da Didaché constitui disposições à respeito da vida comunitária, dedicando especial atenção a hospitalidade e o discernimento dos verdadeiros pregadores, como deve ser o culto dominical, e por último a vivência e organização da comunidade.
1. Verdadeiros e falsos pregadores
“11,1Se alguém vier até vocês ensinando tudo o que foi dito antes, deve ser acolhido. 2Mas se aquele que ensina for perverso e expuser outra doutrina para destruir, não lhe dêem atenção. Contudo, se ele ensina para estabelecer a justiça e o conhecimento do Senhor, vocês devem acolhê-lo como se fosse o Senhor. 3Quantos apóstolos e profetas, procederam conforme o principio do Evangelho. 4Todo apóstolo que vem até vocês seja recebido como o Senhor. 5Ele não deverá ficar mais que um dia ou, se for necessário, mais outro. Se ficar por três dias, é um falso profeta. 6Ao partir, o apóstolo não deve levar nada, a não ser o pão necessário até o lugar em que for parar. Se pedir dinheiro, é um falso profeta. 7Não coloquem à prova nem julguem um profeta que em tudo fala sob inspiração, pois todo pecado será perdoado, mas esse não será perdoado. 8Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É assim que vocês reconhecerão o falso e o verdadeiro profeta. 9Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa, não deve comer dela. Caso contrário, trata-se de um falso profeta. 10Todo profeta que ensina a verdade, mas não pratica o que ensina, é um falso profeta. 11Todo profeta comprovado e verdadeiro, que age pelo mistério terreno da Igreja, mas não ensina a fazer como ele faz, não será julgado por vocês. Ele será julgado por Deus. Assim também fizeram os antigos profetas. 12Se alguém disser sob inspiração: “Dê-me dinheiro” ou qualquer outra coisa, não o escutem. Contudo, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue”. (Didaché, 11,1-12). (Cf. Mt 12,31)
Segundo a Didaché, as primeiras comunidades conheciam os apóstolos, os profetas e os mestres. É difícil entendermos qual a diferença entre estes, pois a função ou o ministério de todos era o anúncio do Evangelho e o ensino, e muito menos saber se eles tinham alguma espécie de sacerdócio ou algum posto de liderança nas comunidades.
Vemos no texto a insistência na hospitalidade dos mesmos, o que indica que seu ministério não era fixo em determinadas comunidades, que eles o exercia de modo itinerante, visando diversas comunidades cristãs. Daqui a dificuldade em distinguir quem era o verdadeiro e o falso pregador ou profeta.
A Didaché define o falso pregador como aquele que explora a comunidade e não pratica o que ensina, e para reconhecer o verdadeiro pregador do Evangelho, a comunidade chegou a diversos critérios:
·Ensinar a justiça e o conhecimento do Senhor;
·Falar sob inspiração;
·Viver como Senhor;
·Praticar o que ensina;
Podemos nos perguntar: Porque tanta atenção com homens que passavam a vida viajando anunciando o Evangelho, se a comunidade já vivia de acordo com o Evangelho? O respeito das primeiras comunidades cristãs para com os pregadores é muito grande, porque dependiam dele para conhecer o Evangelho, visto que em sua maioria eram formadas por pessoas simples e sem muita instrução. O pregador através da sua palavra e vida, de certa forma era a personificação viva do Evangelho para os cristãos, pois os Evangelhos escritos, como nós os conhecemos hoje, circulavam somente nas comunidades onde nasceram e comunidades vizinhas.
2. Hospitalidade com discernimento
“12,1Acolham todo aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examinem para conhecê-lo, pois vocês te, juízo para distinguir a esquerda da direita. 2Se o hóspede estiver de passagem, dêem-lhe ajuda no que puderem; entretanto, ele não permanecerá com vocês, a não ser por dois dias, ou três, se for necessário. 3Se quiser estabelecer-se com vocês e tiver uma profissão, então trabalhe para se sustentar. 4Se ele, porém, não tiver profissão, procedam conforme a prudência, para que um cristão não viva ociosamente entre vocês. 5Se ele não quiser aceitar isso, é um comerciante de Cristo. Tenham cuidado com essa gente”. (Didaché 12,1-5).
O espírito de vivência da comunidade cristã é o da fraternidade e da partilha, o que a faz sempre aberta para acolher os que necessitam de ajuda. Este trecho é uma reafirmação do que a Didaché menciona várias vezes, no tocante ao relacionamento com o próximo, quem quer que ele seja.
No entanto, a comunidade deve sempre agir com discernimento, pois, a ocasião de ajuda, pode se tornar ocasião para que uns e outros “comerciantes de Cristo” aproveitem e explorem a boa vontade da comunidade e nem seja manipulada em favor de interesses alheios ao de Jesus Cristo e seu projeto. O alerta se define do seguinte modo: “Não basta ser bom: é preciso ser justo e ter muito bom-senso.
3. Sustentação do profeta
“13,1Todo verdadeiro profeta que queira estabelecer-se entre vocês é digno do seu alimento. 2Da mesma forma, também o verdadeiro mestre é digno do seu alimento, como todo operário. 3Por isso, tome os primeiros frutos de todos os produtos da vinha e da eira, dos bois e das ovelhas, e os dê para os profetas, pois eles são os sumos sacerdotes de vocês. 4Se, porém, vocês não têm nenhum profeta, dêem aos pobres. 5Se você fizer pão, tome os primeiros e os dê conforme o preceito. 6Da mesma forma, ao abrir uma vasilha de vinho ou de óleo, tome a primeira parte e dê aos profetas. 7Tome uma parte do seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, e os dê conforme o preceito.” (Didaché 13,1-7).
A nossa concepção em relação ao sustento dos nossos pastores é a mesma que as primeiras comunidades tinham em relação aos seus pregadores, profetas e mestres.
Por empregar todo o seu tempo na evangelização, o pregador fica dependendo das comunidades por onde passa para sobreviver, daí o compromisso das mesmas comunidades em oferecer parte das coisas destinadas ao seu sustento àqueles que se dedicam totalmente ao anúncio da Palavra de Deus e do Cristo Jesus.
O compromisso da comunidade vai muito além do sustento dos seus agentes, ela deve se empenhar ao máximo para que de fato as necessidades da evangelização sejam todas providas.
Mais uma vez vemos presente na instrução dos apóstolos a lição da caridade: “Onde não tiver profetas, dêem aos pobres”.
4. A celebração dominical
“14,1Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro. 2Aquele que está de briga com seu companheiro, não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado. 3Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: “Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu nome é admirável entre as nações”. (Didaché 14,1-3). (Cf. Mt 5,23-25; Ml 1,11-14)
Outra reafirmação da Didaché, agora no que diz respeito à celebração da Eucaristia.
Para os primeiros cristãos, é na Eucaristia que se concretiza o espírito de fraternidade que rege a comunidade, pois ela por si só é celebração da fraternidade. A insistência na confissão dos pecados e na reconciliação é para que a Eucaristia não seja profanada no seu sentido mais profundo. Reconciliação que não deve ser só no momento do culto, mas, em toda vida, pois sem isto a Celebração dominical e a Eucaristia perdem o seu sentido: reunir os filhos de Deus, para o seu louvor.
5. A vivência comunitária
“15,1Escolham para vocês bispos e diáconos dignos do Senhor. Eles devem ser homens mansos, desprendidos do dinheiro, verazes e provados, porque eles também exercem para vocês o ministério dos profetas e dos mestres. 2Não os desprezem, porque entre vocês eles têm a mesma dignidade que os profetas e mestres. 3Corrijam-se mutuamente, não com ódio, mas com paz, como vocês têm no Evangelho. E ninguém fale com nenhuma pessoa que tenha ofendido o próximo; que essa pessoa não escute nenhuma palavra de vocês, até que se tenha arrependido. 4Façam suas orações, esmolas e todas as ações, da forma que vocês têm no Evangelho de nosso Senhor”. (Didaché 15,1-4).
A)Dois modelos de Igreja
A Igreja nascente viu-se diante de dois modelos de Igreja. A comunidade palestinense mais ligada à tradição, onde estavam presentes os apóstolos e os presbíteros; A Didaché lembra este modelo de Igreja. O segundo modelo de Igreja nasceu fora da Palestina e era voltado à missão e as necessidades que dela surgiam, tendo logo a necessidade de servidores para a comunidade, no caso os diáconos, e de supervisores para as diversas comunidades existentes, os bispos; ambos escolhidos de modo democrático, ou seja, pelo povo.
Os diáconos e bispos em geral eram homens sábios e conhecedores do Evangelho, porém, não se sabe dizer com precisão qual eram as suas funções nas comunidades.
A Tradição e missão são dois elementos presentes em toda comunidade cristã, independente do modelo que ela segue nos primeiros séculos do cristianismo, pois a tradição significa fidelidade ao compromisso com o projeto de Jesus, e a missão significa encarnar este projeto, a fim de responder os desafios de cada tempo e lugar. Ou seja, a comunidade precisa ter os olhos fixos no Evangelho e na Vida.
B)Base da vida comunitária: Correção mútua, feita com espírito fraterno. Este constitui o esforço básico da comunidade, pois não é bom viver sozinho e não é fácil viver junto. A Didaché mostra que a comunidade deve levar a sério este preceito, e ser implacável, ao ponto de isolar completamente quem ofendeu o próximo, até que ele aprenda a necessidade da reconciliação;
Expressão da vida cristã: Sua finalidade é sempre o Evangelho de Cristo, e ela deve se exprimir por meio da oração (intimidade com Deus), da esmola (amor ao próximo) e da ação, colaborando para a transformação da sociedade pecadora na comunidade fraterna que Deus quer para seus filhos e filhas.
A segunda parte da Didaché constitui o ritual litúrgico das primeiras comunidades, com instruções para a administração do Batismo, orientações sobre o jejum e a oração e sobre a Celebração Eucarística.
1. O Batismo
“7,1Quanto ao batismo, procedam assim: Depois de ditas todas essas coisas, batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. 2Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente. 3Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. 4Antes do batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Àquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias”. (Didaché 7,1-4). (Cf. Mt 28,19)
Na administração do Batismo encontramos muitas semelhanças com o modo como procedemos hoje na Igreja.
O Batismo era administrado nos primeiros séculos após uma etapa de catequese, representada na primeira parte do Didaché, que como sabemos consistia no anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. A cerimônia era realizada em comunidade, com o uso de um ritual simples que se define no “Batismo com água e à invocação a Trindade”.
O texto nos mostra que o mais usual era a imersão em água corrente, ou seja, em rios, ou “em outra água”, provavelmente piscinas ou reservatórios. Caso deste modo fosse impossível, a Didaché determina que se derrame três vezes água sobre a cabeça do batizando.
Após a etapa de catequese, obviamente necessária, pois, já neste tempo havia a concepção de que o Batismo fazia a pessoa ingressar na família de Deus, embora isto não esteja definido ainda, o batizando, aquele que administrava o batismo e provavelmente a comunidade jejuava. O jejum e a instrução nos mostram que o Batismo era concedido somente a pessoas adultas, e sua administração não se restringia a um ministro em especial, portanto, qualquer batizado da comunidade poderia conceder o Batismo a alguém não batizado.
2. O jejum e a oração
“8,1Que os jejuns de vocês não coincidam com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Vocês, porém, jejuem no quarto dia e no dia da preparação. 2Não rezem como os hipócritas, mas como o Senhor ordenou no seu Evangelho. Rezem assim: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia, perdoa a nossa dívida, assim como também nós perdoamos aos nossos devedores, e não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o poder e a glória para sempre”. 3Rezem assim três vezes ao dia”. (Didaché 8,1-3). (Cf. Mt 6,9-13; Lc 11,2-4)
Jejum e oração, desde o Antigo Testamento estão intimamente ligados. É assim também com as primeiras comunidades que conservaram estas duas práticas.
O jejum, longe de ter a finalidade de privar os cristãos de alguns alimentos e bens, lembra ao mesmo que existe uma fome maior que a de alimentos, que só a vinda do Reino de Deus pode satisfazer. A oração é entendida como abertura a Deus, ou seja, o orante está aberto a Deus e ao seu projeto e consciente dos pedidos essenciais, manifestados no “Pai nosso”, para que este projeto aconteça. Deste modo estão unidos jejum e oração, pois, o cristão eleva a Deus o clamor para que venha o seu Reino, a fim de que este, com sua justiça liberte o mundo de todas as fomes.
O fato da Oração do Senhor estar citada no texto nos mostra que desde os primórdios tal oração é a oração por excelência dos cristãos e modelo de qualquer outra oração que a comunidade ou o Cristão possa dirigir a Deus. A Instrução “Rezem assim três vezes por dia” é conservada até hoje pela Igreja que de fato reza o Pai nosso três vezes ao dia: por ocasião da Oração das Laudes, logo cedo; por ocasião da Oração das Vésperas, no fim da tarde; e na celebração do Sacrifício eucarístico.
3. A celebração eucarística
“9,1Celebrem a Eucaristia deste modo: 2Digam primeiro sobre o cálice: “Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha do teu servo Davi, que nos revelaste por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para sempre”. 3Depois digam sobre o pão partido: “Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do conhecimento que nos revelaste por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para sempre. 4Do mesmo modo como este pão partido tinha sido semeado sobre as colinas, e depois recolhido para se tornar um, assim também a tua Igreja seja reunida desde os confins da terra no teu reino, porque tua é a glória e o poder, por meio de Jesus Cristo, para sempre”. 5Ninguém coma nem beba da Eucaristia, se não tiver sido batizado em nome do Senhor, porque sobre isso o Senhor disse: “Não dêem as coisas santas aos cães”. (Didaché 9,1-5) (Cf. Mt 18,20. 26,26-28; Jo 6; I Cor 11,17-34; “Seqüência de Corpus Christi).
É óbvio ao ler o texto que a Eucaristia nele mencionada é bem diferente daquele rito eucarístico que nós conhecemos e celebramos hoje. Provavelmente neste momento da vida da Igreja não existisse ainda uma fórmula fixa de celebração, mas, o texto nos deixa claro uma coisa: A Eucaristia era celebrada em comum, provavelmente dentro de uma refeição, o que caracteriza familiaridade, e só podia ser participada pelos batizados, que instruídos na fé, se haviam comprometido com o projeto de Jesus.
Ou seja, as primeiras comunidades entenderam o mandato de Jesus de celebrar o seu memorial até a sua volta, e que só podiam “comungar da ceia” aqueles que se comprometessem com a sua causa. Há também neste contexto o destaque do aspecto da Eucaristia como Sacramento de unidade da Igreja, ou seja, os que tomam a ceia se tornam participantes de um só corpo em comunhão com todos os que aderem o Cristo e recebem o batismo em seu nome.
A Eucaristia, ao longo da História da Igreja irá ganhar novos significados, e o modo de celebrá-la irá evoluir também. Porém, uma coisa é certa, desde o inicio do cristianismo era considerada como o coração da comunidade, e como sinal eficaz e real da presença de Jesus no seio da mesma.
4. Agradecimento depois da Eucaristia
“10,1Depois de saciados, agradeçam deste modo: “2Nós te agradecemos, Pai Santo, por teu santo Nome, que fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelastes por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para sempre. 3Tu, Senhor Todo-poderoso, criastes todas as coisas por causa do teu Nome, e deste aos homens o prazer do alimento e da bebida, pra que te agradeçam. A nós, porém, deste uma comida e uma bebida espiritual, e uma vida eterna por meio do teu servo. 4Antes de tudo, nós te agradecemos porque és poderoso. A ti a glória para sempre. 5Lembra-te, Senhor, da tua Igreja, livrando-a de todo o mal e aperfeiçoando-a no teu amor. Reúne dos quatro ventos esta Igreja santificada para o teu reino que lhe preparaste, porque teu é o poder e a glória para sempre. 6Que a tua graça venha, e este mundo passe. Hosana ao Deus de Davi. Quem é fiel, venha; quem não é fiel, converta-se. Maranatá. Amém”. 7Deixem os profetas agradecerem à vontade”. (Didaché 10,1-7). (Cf. Mt 21,15; I Cor 16,22; Ap 22,20).
É uma catequese fundamental para aqueles que desejam viver e se comportar de modo cristão, explicada através do símbolo do caminho, que aqui vai ser explicado sob dois significados, o caminho da vida e o caminho da morte: “1,1Existem dois caminhos: um é o caminho da vida, e o outro, o da morte. A diferença entre os dois é grande”. (Didaché 1,1). (Cf. Dt 5,32s. 11,26-32. 30,15-20; Ecle 15,15-17; Jr 21,8; Mt 7,13-14)
O cristão deve fazer uma escolha fundamental que irá definir toda a sua vida e destino. Só há um caminho que produzirá no cristão a vida e realização, é o caminho da vida. Os outros caminhos acabam por levar à perdição e a morte.
1. Viver é amar
“2O caminho da vida é este: Em primeiro lugar, ame a Deus, que criou você. Em segundo lugar, ame a seu próximo como a si mesmo. Não faça ao outro nada daquilo que você não quer que façam a você. 3O ensinamento que deriva destas palavras é o seguinte: bendigam aqueles que os amaldiçoam e rezem por seus inimigos, e ainda jejuem por aqueles que os perseguem. Com efeito, se vocês amam aqueles que os amam, que graça vocês merecem? Os pagãos não fazem o mesmo? Quanto a vocês, amem aqueles que os odeiam, e vocês não terão nenhum inimigo”. (Didaché 1,2-3) (Cf. Dt 6,5. 10,12; Lv 6,31; 19,18; Ecle7,30; Mt 5,44s. 7,12. 22,34-39; Lc 6,27s.32s)
O ponto de partida da vida cristã é o amor a Deus, refletido no amor a si mesmo e ao próximo. O amor ao próximo deve ter a mesma medida do amor que o cristão tem para consigo mesmo, e entenda-se “próximo” como todas as pessoas, inclusive os “inimigos”. Assim entende-se que os cristãos não são e nem podem ser inimigos de ninguém.
2. A violência do amor
“4Não se deixe levar pelos impulsos instintivos. Se alguém lhe dá uma bofetada na face direita, ofereça-lhe também a outra face, e você será perfeito. Se alguém o força a acompanhá-lo pelo espaço de um quilômetro, acompanhe-o por dois; se alguém tira o seu manto, entregue-lhe também a túnica. Se alguém toma alguma coisa que pertence a você, não a peça de volta, pois você não poderá fazer isso” (Didaché 1,4). (Cf. Dt 24,10-13; Mt 5,39s.; Lc 6,29)
O cristão não pode agir por “instinto”. Diante de qualquer tipo de violência, ele responde sempre com a violência do amor, a única capaz de desarmar o violento.
3. O amor de partilha
“5Dê a quem pede a você e não peça para devolver, pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a todos. Feliz aquele que dá conforme o mandamento, porque será considerado inocente. Ai de quem recebe: se recebe por estar necessitado, será considerado inocente; mas se recebe sem ter necessidade, deverá prestar contas do motivo e da finalidade pelos quais recebeu. Será posto na prisão e interrogado sobre o que fez; e daí não sairá até que tenha devolvido o último centavo. 6A esse respeito, também foi dito: Que a sua esmola fique suando nas mãos, até que você saiba para quem a está dando” (Didaché 1,5-6). (Cf. Ecle 12,1; Mt 5,25s; Lc 12,58s;)
É preciso entender que o distribuidor dos bens é Deus, e ele dá estes bens para que sejam repartidos entre todos. O cristão é chamado a partilhar os seus bens porque ele é capaz disto, principalmente com aqueles que nada têm. Por sua vez, quem do outro recebe bens em sinal de partilha, deve ter discernimento, pois a “necessidade” não pode ser pretexto para o acumulo ou desperdiço, sobretudo, no tocante a alimentos e vestuário. Aqui se fala claramente do “bem comum” da comunidade, onde os cristãos devem ter tudo em comum e dividir os seus bens com alegria (Cf. At 2,42-47).
O versículo sexto traz um alerta: Não basta ajudar materialmente quem é necessitado, por simples desencargo de consciência; é preciso comprometer-se com o pobre, entrar em comunhão com ele e participar de toda a sua situação, pois a ajuda material na verdade é um segundo aspecto de uma missão bem maior que é acabar com a pobreza, tanto material, como espiritual. Doar a quem não tem é muito mais que uma ocasião para se fazer caridade.
4. Exigências do amor ao próximo
“2,1O segundo mandamento da instrução é este: 2Não mate, não cometa adultério, não corrompa os jovens, não fornique, não roube, não pratique magia, nem feitiçaria. Não mate a criança no seio de sua mãe, nem depois que ela tenha nascido. 3Não cobice os bens do próximo, não jure falso, nem preste falso testemunho. Não seja maledicente, nem vingativo. 4Não seja duplo no pensar e no falar, porque a duplicidade é armadilha mortal. 5Que a sua palavra não seja falsa ou vazia, mas se comprove na prática. 6Não seja avarento, nem ladrão, nem fingido, nem malicioso, nem soberbo. Não planeje o mal contra o seu próximo. 7Não odeie a ninguém, mas corrija uns, reze por outros, e ainda ame aos outros, mais do que a si mesmo”. (Didaché 2,1-7). (Cf. Ex 20,2-17. 21,22-25; Dt 5,6-21; Pr 21,6; Mt 5,33; Jo 15,13).
As primeiras comunidades cristãs recapitulam e ampliam, conforme a sua realidade os preceitos e as conseqüências dos dez mandamentos, tendo sempre presente o mandamento de Jesus, que constitui no amor ao próximo, que por sinal, será sempre uma exigência para a vida na comunidade.
Os mandamentos, neste contexto, podem ser divididos em três grandes linhas:
·O respeito à vida: Já nas primeiras comunidades havia o cuidado pela própria vida e a vida dos outros, enxergando aqui a vida como um verdadeiro Dom de Deus, e por isso mesmo os cristãos já abominavam o aborto, que hoje infelizmente é reivindicado como “um direito da mulher” na sociedade, inclusive em alguns grupos e movimentos que se dizem “católicos”. A vida que é dom de Deus passou a ser dom de seres humanos? Mas, isto é pauta para outro assunto;
·O respeito aos bens;
·O respeito ao próximo: mais uma vez o mandamento do amor.
As comunidades entendem que os mandamentos não podem ser compreendidos em si mesmos apenas, mas, que eles irão proporcionar e pressupor o fundamento da vida cristã, que traz como exigência à fraternidade e a partilha, visando à justiça e a imitação em todos os campos da vida do Evangelho de Jesus Cristo.
5. As raízes do mal e do bem
“3,1Meu filho, procure evitar tudo o que é mau e tudo o que se pareça com o mal. 2Não seja colérico, porque a ira conduz para a morte. Também não seja ciumento, nem briguento ou violento, porque os homicídios nascem de todas essas coisas. 3Meu filho, não seja cobiçoso de mulheres, porque a cobiça leva à fornicação. Evite falar obscenidades e olhar com malícia, pois os adultérios surgem de todas essas coisas. 4Meu filho, não seja dado à adivinhação, pois a adivinhação leva à idolatria. Também não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre essas coisas, pois de todas essas coisas provém a idolatria. 5Meu filho, não seja mentiroso, porque a mentira leva ao roubo. Não seja ávido de dinheiro, nem cobice a fama, porque os roubos nascem de todas essas coisas. 6Meu filho, não seja murmurador, porque a murmuração leva à blasfêmia. Não seja insolente, nem tenha mente perversa, pois as blasfêmias nascem de todas essas coisas. 7Seja manso, porque os mansos receberão a terra como herança. 8Seja paciente, misericordioso, sem maldade, tranqüilo e bom, respeitando sempre as palavras que você tiver ouvido. 9Não se engrandeça a si mesmo, nem se entregue à insolência. Não se junte com os “grandes”, mas converse com os justos e pobres. 10Aceite como boas as coisas que lhe acontecem, sabendo que nada acontece sem o consentimento de Deus”. (Didaché 3,1-10) (Cf. Ex 16,1-3; Lv20.6-27; Dt 18,9-14; Sl 31,11; Mt 5,5).
O principio geral deste texto se resume em “evitar o mal”, apresentado como conseqüência do egoísmo, da falta de autocontrole e ambição por parte do homem. Ainda aqui identificamos fortes traços do decálogo e do trato com o próximo.
A)Raízes do mal
As primeiras comunidades designam desta maneira as raízes do mal:
a)Homicídio e adultério: Têm suas raízes na falta de controle e na cobiça. Cobiçar não é simplesmente desejar, mas planejar para se apropriar do que se deseja;
b)Idolatria: A manipulação de “coisas tidas como sagradas”, em vista de interesses próprios e para conseguir poder sobre os outros, através da enganação, sobretudo, pois quem faz este tipo de manipulação, acaba por acreditar e fazer os outros acreditarem que ela é absoluta e divina. As primeiras comunidades já têm este cuidado de não se “misturar” com outras doutrinas que não condizem com o cristianismo, e mais do que isso, reprovam categoricamente todo tipo de adivinhação, encantamentos, astrologia (horóscopo) e outras doutrinas que tenham certo toque de magia, que eram muito comuns na época;
c)Mentira: Ocultação de uma verdade à qual o próximo tem direito, visando os interesses de alguém, como dinheiro, prestígio e fama;
d)Riqueza: Para os primeiros cristãos, ao lado do poder a riqueza é outro grande ídolo, pois acreditavam que o poder roubava-lhes a liberdade, e a riqueza roubavam-lhes os bens, que na verdade são de direito de todos. Pensavam assim por dois motivos: primeiro porque procurava viver em tudo o ensinamento do Senhor e o modo como o mesmo viveu entre nós; segundo, porque o poder e a riqueza na época pertenciam somente aos “grandes”, que em geral, oprimiam e escravizavam os “pequenos”;
e)Blasfêmia: Segundo os primeiros cristãos é dizer que o projeto de Deus é mau, pois a murmuração, a insolência e a mente perversa levam a dúvida e à reclamação e, por conseguinte à blasfêmia.
B)As raízes do bem:
a)Opção pelos pobres: Vemos que desde sua origem, a comunidade cristã é convidada a optar pelos pobres, pois são estes que buscam e podem realizar a justiça que Deus quer. As qualidades apresentadas (mansidão, paciência, misericórdia, respeito, humildade) pertencem aos pobres e aos justos que crêem no anuncio do Evangelho e lutam pelo Reino de Deus – todos nós hoje somos convidados a nos enquadrarmos desta maneira, assim como os primeiros cristãos tiveram consciência de que nisto se constitui a verdadeira vocação da comunidade cristã. A força dos pobres não vem de armas, mas, da violência do amor que persevera, certos das promessas do próprio Jesus nas Bem aventuranças, de que a herança é o Reino de Deus (Cf.);
b)Aceitar a vontade de Deus: O cristão deve ter consciência de que a vida e a história obedecem em primeiro lugar à vontade de Deus, de que todos tenham vida. Por isso, o cristão deve, com base na Palavra de Deus, buscar nos acontecimentos do dia a dia, não os seus caprichos e interesses, mas, sempre a Vontade de Deus.
6. A pessoa inserida na comunidade
“4,1Meu filho, lembre-se dia e noite daquele que anuncia a Palavra de Deus para você e honre-o como se fosse o próprio Senhor, pois o Senhor está presente onde é anunciada a soberania do Senhor. 2Procure estar todos os dias na companhia dos fiéis, para encontrar apoio nas palavras deles. 3Não provoque divisão. Pelo contrário, reconcilie aqueles que brigam entre si. Julgue de modo justo, corrigindo as culpas sem fazer diferença entre as pessoas. 4Não fique hesitando sobre o que vai ou não acontecer. 5Não seja como os que estendem a mão na hora de receber e a retiram na hora de dar. 6Se você ganha alguma coisa com o trabalho de suas mãos, ofereça-o como reparação por seus pecados. 7Não hesite em dar, nem dê reclamando, pois você sabe quem é o verdadeiro remunerador da sua recompensa. 8Não rejeite o necessitado. Divida tudo com o seu irmão, e não diga que são coisas suas. Se vocês estão unidos nas coisas que não morrem, tanto mais nas coisas perecíveis. 9Não se descuide de seu filho ou de sua filha; pelo contrário, instrua-os desde a infância no temor de Deus. 10Não dê ordens com rudeza ao seu servo ou à sua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que você, para que não percam o temor de Deus, que está acima de uns e outros. Com efeito, ele não virá chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou. 11Quanto a vocês, servos, sejam submissos aos seus senhores, com respeito e reverência como à imagem de Deus. 12Deteste toda hipocrisia e tudo o que não seja agradável ao Senhor. 13Não viole os mandamentos do Senhor. Guarde o que você recebeu, sem nada acrescentar ou tirar. 14Confesse as suas faltas na reunião dos fiéis, e não comece a sua oração com má consciência. Este é o caminho da vida”. (Didaché 4,1-14). (Cf. Dt 1,16s; Pr 31,9; Jo 20,23; At 4,32; Hb 13,7.16; Ef 6,1-9; Cl 3,20-25; I Jo 5,14)
Este trecho afirma que a vida cristã deve ser centralizada no amor a Deus e ao próximo, e que a mesma essencialmente é realização comunitária onde tudo é partilhado fraternalmente (Cf. At 2,42-47). Encontramos ainda traços do “rosto” das primeiras comunidades: seus representantes, espaço e procedência dos membros.
A)O Evangelho e seus pregadores: É certo que as comunidades do primeiro século ainda não conhecem os evangelhos escritos, e sim, sua versão oral. O significado do Evangelho para os primeiros cristãos é o mesmo para nós hoje, trata-se de uma “Palavra viva” do próprio Cristo, que era preservada e anunciada por “pregadores itinerantes”, que servem as comunidades e dependem delas. Não se sabe ao certo, se estes pregadores já possuíam alguma espécie de sacerdócio, e se eles tinham alguma função de lideres nas comunidades;
B)A Comunidade Cristã:
a)Ambiente vital dos cristãos, onde estes partilham a vida e encontram uns nos outros o apoio para perseverar na fé;
b)É valor máximo na vida dos cristãos, e por isso não pode ser palco de divisão ou competição;
c)É nela que se dá a reconciliação, que deve ser preocupação de todos sem exceção;
d)Tudo o que a comunidade cristã reconhece e possuí é dom de Deus;
e)Lugar de acolhida por excelência dos pobres e marginalizados;
f)Lugar de partilha: “Deus dá tudo, para que todos repartam tudo, segundo as necessidades de cada um”.
C)Viver em Comunidade: Viver em comunidade supõe que cada um confie plenamente no Dom de Deus, libertando-se da preocupação individual e calculista com o amanhã. Para tal vivência a comunidade precisa se educar, e o ponto fundamental nesta educação é a instrução no temor de Deus, ou seja, a comunidade precisa aprender a reconhecer em Deus, o Senhor e doador da vida, que tem o seguinte projeto: “Antes de se partilhar qualquer coisa, a comunidade precisa partilhar a vida recebida de Deus mesmo entre todos (Cf.). Só assim o cristão poderá partilhar as outras coisas que dia após dia Deus dá á comunidade”. Aqui começa a educação cristã, ao mostrar que os cristãos são interdependentes e se completam mutuamente na partilha do que cada um é e tem. O desejo de Deus é que não haja mais desigualdade, para que todos formem uma única família, visando na diversidade o bem comum de todos. A vivência na comunidade é expressão deste desejo de Deus.
D)Transformação das estruturas: Os cristãos começam a ganhar a consciência de que o Evangelho exige mudança radical. Não basta o cristão defender a doutrina, é preciso praticá-la, para não cair em hipocrisia. Não basta guardar os mandamentos, é preciso vivê-lo.
E)O Sacramento da Confissão: A Confissão aparece aqui não como um sacramento juridicamente estruturado e reconhecido. Provavelmente os cristãos já confessavam os seus pecados, mas, não a um sacerdote, e sim à comunidade que era a responsável pelo perdão. Aliás, o “sentir-se viva” da comunidade estava centrado na confissão e no perdão;
F)A oração: O texto nos fala que não se deve começar a oração com má consciência, portanto, a oração do cristão deve ser autêntica, feita dentro do projeto de Deus e em vista da sua realização.
7. O caminho da morte
“5,1O caminho da morte é este: Em primeiro lugar, é mau e cheio de maldições: homicídios, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, feitiçarias, rapinas, falsos testemunhos, hipocrisias, duplicidade de coração, fraude, orgulho, maldade, arrogância, avareza, conversa obscena, ciúme, insolência, altivez, ostentação e ausência de temor de Deus. 2Por esse caminho andam os perseguidores dos bons, os inimigos da verdade, os amantes da mentira, os que ignoram a recompensa da justiça, os que não desejam o bem nem o julgamento justo, os que não ficam atentos para o bem, mas para o mal. Deles está longe a calma e a paciência; são amantes das coisas vãs, ávidos de recompensas, não se compadecem do pobre, não se importam com os atribulados, não reconhecem o seu Criador. São ainda assassinos de crianças, corruptores da imagem de Deus, desprezam o necessitado, oprimem o aflito, defendem os ricos, são juízes com os pobre e, por fim, são pecadores consumados. Filhos, afastem-se de tudo isso”. (Didaché 5,1-2)
Resumindo, a catequese dos primeiros cristãos sobre o caminho da vida consiste primeiramente no temor a Deus, e depois no amor a Deus e ao próximo. Sendo assim, o caminho da morte constitui o contrário, pois começa com a ausência do temor a Deus, que faz o homem se colocar em seu lugar e se achar no direito de se julgar como centro e senhor da sua vida. Este trecho traz um alerta aos primeiros cristãos, e em outras palavras diz que quando o homem usurpa o lugar de Deus, cria automaticamente um projeto de escravidão e morte, descaracterizando totalmente o projeto de vida de Deus. Esta lista de pecados e vícios enumerada mostra o poder da auto-suficiência humana.
É interessante refletirmos o seguinte: os cristãos dos primeiros séculos temiam cair em algum destes pecados e vícios, porque tinham a consciência de que isto constituía um mal grande a comunidade, pois tinha presentes em sua vida o temor filial a Deus. Em outras palavras, tinham medo de pecar e sabiam muito bem onde poderiam ou não colocar os seus pés e sua vida.
Nestes tempos em que vivemos se perderam de vista todas estas coisas, e a lista de vícios e pecados que é citada aqui, não passa simplesmente de coisas corriqueiras da vida dia diária de muitos, inclusive cristãos. Será que não é necessário que os homens e mulheres de nosso tempo reinflamem no coração o temor a Deus, e lhe devolva a direção de sua vida?
8. Perfeição é servir ao Senhor
“1Fique atento para que ninguém o afaste deste caminho da instrução, pois aquele ensinaria a você coisas que não pertencem a Deus. 2Se puder carregar todo o jugo do Senhor, você será perfeito. Se isso não for possível, faça o que puder. 3Quanto à comida, observe o que você puder. Não coma nada do que é sacrificado aos ídolos, porque esse é um culto a deuses mortos”. (Didaché 6,1-3). (Cf. Mt 24,4)
Este trecho conclui a primeira parte do Catecismo dos primeiros cristãos, inclusive é a parte mais complexa da instrução. A conclusão de dá por meio de uma exortação, para que os cristãos tenham discernimento em sua vida, a fim de não se desviarem do caminho da vida, ou seja, o caminho do Senhor.
Nesta primeira parte vimos o “Evangelho vivo”, que chegou até os primeiros cristãos por meio da Tradição Oral. O jugo do Senhor de que fala o texto, se trata deste Evangelho aqui proclamado, que de maneira alguma é imposição, mas sim convite e proposta a serem aceitos individualmente por cada membro na comunidade que predispõe a estar no caminho do Senhor e busca ao servi-lo a perfeição. Perfeição deve ser entendida aqui na integra: para ser perfeito é preciso servir ao Senhor.